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MEMÓRIAS

O menino de lenço e estrelas

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Quando os cabelos começam a ganhar tonalidade prateada, percebemos, pouco a pouco, o avançar do tempo e quantos acontecimentos decisivos orientaram nossa caminhada. Muitos deles pertencem a décadas distantes, mas permanecem tão vivos na memória que parecem ter ocorrido ontem. Há experiências que o calendário não apaga, porque ajudaram a moldar quem somos.

Entre as páginas mais luminosas de minha memória, que considero das mais valiosas em minha formação humana e que guardo com especial ternura, uma ocupa lugar especial: o período em que integrei o grupo de escoteiros do Colégio Marista. Naquele tempo, como membro da Patrulha Pantera, vivi aprendizados que ultrapassaram a adolescência e alcançaram toda a minha existência. Aprendi lições que não cabiam apenas nos livros.

Foi entre os treze e os quinze anos que compreendi valores essenciais para a construção do caráter. Passei a ter a certeza de que a verdade é bússola segura para qualquer jornada; de que Deus caminha ao lado dos que creem; de que respeitar o próximo é honrar a própria humanidade; de que a lealdade sustenta amizades; e de que um sorriso sincero pode iluminar dias inteiros.

Descobri também a importância da disciplina, da economia, da solidariedade e do compromisso com o bem comum. No escotismo, os ensinamentos não ficavam apenas nas palavras. Eram vividos no cotidiano. Naquele universo de descobertas, cozinhar era ciência, o esporte era celebração e estar alerta era uma forma de amar a vida.

A flor-de-lis, o lenço no pescoço e os três dedos erguidos, com o polegar abraçando o mindinho, não ficaram presos ao passado. São sinais que atravessaram os anos e ainda conversam comigo nas manhãs de hoje. Mais do que emblemas de uma juventude distante, tornaram-se referências permanentes de princípios que ainda iluminam meus dias.

Agora, na estação generosa da avosidade, esforço-me para que não adormeça o menino que mora em mim. Porque envelhecer não deveria significar perder a infância, mas aprender a levá-la pela mão até o fim da caminhada. Se ainda carrego esse menino comigo, devo muito àquele jovem escoteiro que um dia descobriu, entre trilhas e amizades, o verdadeiro sentido de viver.

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