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Opinião

Caridade na verdade – 2

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A nova encíclica de Bento 16 é um brado cristão contra a ganância desenfreada, o lucro acima de tudo, o lucro como fim em si mesmo, sem nenhum sentido social. É por isso mesmo, que o papa põe o seu ensinamento sob o ângulo da caridade evangélica, do amor e do respeito ao nosso semelhante, que é nosso irmão. O liberalismo do século 19 tinha como slogan a expressão francesa ?laissez faire, laissez passer? (deixe fazer, deixe passar). Ele criou o sistema capitalista em sua versão financeiro-especulativa. O que está em crise, escrevia José Faro em novembro passado, na revista Cidade Nova, não são os bancos americanos, mas sim o próprio sistema capitalista em sua versão financeiro-especulativa. O paradoxo dessa crise, continua ele, é que o Estado tenha de intervir com centenas de bilhões de dólares para salvar a economia, justamente onde os grandes grupos econômicos e seus intelectuais sempre defendiam a liberdade absoluta para o mercado. É curioso lembrar que o primeiro banco da história, o Monte della Pietà, foi criado pelos franciscanos no século 13, exatamente para libertar os pobres da especulação dos emprestadores de dinheiro. Em nossos dias, o Nobel da Paz Muhammad Yunus criou o Grameen Bank (Banco dos Pobres) exatamente para conceder empréstimos a pessoas de baixa renda, com juros modestos, resultando em inadimplência mínima. Ele diz: ?Ajude-nos a levar o programa de nosso banco para as famílias mais pobres do mundo!? Os bancos e as financeiras continuam a ser instituições essenciais para o bem comum, para as pessoas e os empresários. Não funcionaria, por exemplo, a agricultura, sem os empréstimos bancários. E assim chegamos ao ensinamento fundamental da encíclica de Bento 16: a destinação social da riqueza. Diz o papa: ?A vitória sobre o subdesenvolvimento exige a progressiva abertura para formas de atividade econômica, caracterizadas por quotas de gratuidade e comunhão? (nº 39). Vejo aí explícita referência à economia de comunhão, que Chiara Lubich, fundadora dos Focolares, proclamou em sua visita ao Brasil em 1991, e que é uma realidade no Polo Industrial Spartaco em Vargem Grande , S. Paulo, e em Pernambuco, no Pólo Empresarial Ginetta, em Igarassu, e em muitos outros pontos ao redor do mundo. Daí se vê no exemplo indiano e no exemplo cristão que, embora o papa ?não emita moeda? (como disse ironicamente certa revista), os ensinamentos da encíclica podem transformar a atividade econômica em mola do desenvolvimento, superando a ganância do lucro. (*) É arcebispo emérito de Maceió.

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