Opinião
Da irrevog�vel simonia
Ontem na Gazeta, com a credencial de pertencer ao mesmo grupo político de apoio incondicional a José Sarney, Eduardo Bonfim foi muito corajoso e coerente ao repelir o teatral ?cartão vermelho? de Suplicy a Sarney, apontando a postura oportunística do honrado senador paulista. Pela reação de aliados e opositores, Suplicy perdeu uma bela oportunidade de ficar na dele. Coisas incríveis vêm ocorrendo naquela Casa. Não quero falar sobre as saídas de Marina Silva, a poética seringueira da Amazônia e de Flávio Arns, o ?ético? das comunidades eclesiais. Discordante da política oficial para o meio ambiente, a senadora Marina de há muito estava com um pé fora do PT. Aproveitou o momento de declínio moral do governo e faturou mais notoriedade. Quanto a Arns, o surto de moral e ética chegou com alguns anos de atraso. Certamente o mais revelador foi a tibieza do não menos honrado senador Aloísio Mercadante, um dos remanescentes que ainda conseguiam vender aquela velha fantasia de probidade que irisava o Partido dos Trabalhadores, antes de chegar ao poder. Que decepção irrevogável, Seu Mercadante! Após essa digressão, digo aos leitores: a intenção é de escrever sobre a escandalosa escalada da simonia no País. Sim, porque de repente, após uma semana de acusações, um manto de silêncio recobriu a maioria da imprensa. Parece até que Globo e a Record, a exemplo dos nobres senadores, optaram por um ?grande acórdão? e pararam de se agredir, de mostrar as mútuas podridões. Simonia é aquela velha e boa prática de aquisição de favores divinos ? sobretudo a salvação da alma ? através do vil metal, em pessoa ou em bens. A negociata é muito simples, desde que se tenha alguma grana no bolso e algum pecado cabeludo nas costas. Há um intermediário (com procuração de Jesus Cristo) que deposita a bufunfa na conta de Deus, e naturalmente, como em todo bom sistema capitalista, cobra o seu. O expediente não é novo. Dante Alighieri na sua Divina Comédia já chamava a atenção para uma figura identificada como o Papa Nicolau 3º (simonista militante) enterrado no inferno de cabeça para baixo com os pés transformados em grandes tochas. Abolida ? pelo menos oficialmente ? pela Igreja Católica, a simonia serviria de pano de fundo para um dos maiores cismas religiosos liderado pelo monge Martinho Lutero. É de se imaginar que o ?Pai do Protestantismo? certamente ficaria muito desconfortável com o atual descalabro dos irmãozinhos. (*) É médico e professor da Ufal.