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Opinião

O leiturista

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De tempos a tempos, estimadíssimo leitor, me vem à tona, no turbilhão de lembranças que carrego, um fato ocorrido há muito. À época, eu possuía um colega, já próximo da aposentadoria, que tinha como afazer a obrigação de verificar, diariamente ? ano após ano ?, os números que iam aos hidrômetros, engenhocas que registram o que consumimos de água, e rabiscá-los em um bloco. Trabalho cansativo, monótono, repetitivo. Lembro que reservava a este amigo uma admiração: o seu amor aos livros. Tínhamos, sensibilíssimo leitor, pelos livros, um fervor maior do que um peregrino de Compostela. Encontrávamo-nos, às vezes, ao final do expediente, quase noite. Ele, já passado nos anos, de prancheta em punhos e eu, no frescor da juventude, de mãos nos bolsos. Nossas conversas não eram longas, mas eram suficientes para perceber que ele era um homem embalsamado de bondade e compaixão pelo o que é humano. Um dia, encontro-o. Acho-o um tanto quanto pesaroso. Seu rosto denunciava uma noite insone. Tinha um semblante mais triste do que uma chuva fina que cai em um pátio interno de um colégio vazio. Indago-lhe: ?O que houve?? Então, ele me puxa a um canto. Seus dedos pareciam tenazes que me apertavam. E, num sussurro de criança, quase balbuciando, suplica: ?Escute. Apenas escute. Preciso que me escute!?. E conta-me que em seus roteiros de leitura era obrigado a adentrar em uma residência bastante simples, que possuía seu relógio de medição no interior da sala. Nessa casa morava um casal de idosos. Os velhinhos sempre atenciosos, abriam-lhe a porta e lhe ofereciam um copo de água, um cafezinho. Com o tempo a amizade aprofundou-se. Na última visita, ao anunciar-se, ninguém lhe abriu a porta. Estranhou. Colocou a mão à maçaneta e empurrou a porta, vagarosamente, e, pela fresta aberta, anunciou-se. Silêncio. Foi entrando. Passou pelo hidrômetro e continuou pelo corredor e, ao final, ao entrar na saleta, encontrou sentado a uma mesa o ancião, com uma mão levada à testa, sombriamente a olhar para uma bolsa de piaçava que se encontrava dependurada nos braços de uma velha cadeira de madeira. O velho, ao notar sua presença, levanta seus olhos em sua direção e diz, com uma voz dorida: ?Ela iria fazer compras comigo. Apanhou a bolsa, colocou a mão no peito e caiu em meus braços?. (*) É engenheiro da Casal.

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