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Uma guerra silenciosa

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Talvez algumas pessoas ainda não tenham se dado conta, mas existe uma guerra ocorrendo todos os dias na grande rede de computadores. Naturalmente, você já ouviu falar que hackers são sujeitos que invadem computadores, sistemas de segurança e causam prejuízos gigantescos para uma série de circuitos no ciberespaço. Gente que rouba senhas, altera contas de bancos e ganha fortunas com a desgraça dos outros. Bom, aqui há uma polêmica. Os hackers não aceitam receber a fama de responsáveis por esses crimes na rede. A melhor denominação para os criminosos é a palavra cracker (quebrador). Um hacker constrói e melhora programas de computador, garantindo que as pessoas tenham acesso a este conhecimento e possam compartilhá-lo com outras. Um cracker não. Este destrói sistemas e causa danos, uma atividade muito distinta do ideal hacker de colaboração. Um aspecto importante desta guerra silenciosa diz respeito ao livre acesso a informações na internet. Esta é uma pendenga antiga e que ainda está em curso, sem sinais de quando chegará ao fim (se chegar). O mundo controlado pelos conglomerados econômicos domina o fluxo de informações na internet. Para isso, não disponibiliza nenhum material de áudio, vídeo ou software sem pedir dinheiro em troca. Não existe a ideia de cooperação neste setor da sociedade. Aqui, ter significa pagar (como se em outras áreas do mundo fosse diferente), o que é um tanto paradoxal se observarmos que a ideia da internet é compartilhar livremente conhecimentos. A grande batalha nesse terreno tem a ver com a necessidade de ter as coisas sem precisar pagar por elas. Aí entra em cena a atividade hacker, permitindo que milhões tenham acesso a um sem-número de materiais culturais, como vídeos, músicas, clipes, programas, jogos etc. É nisto que consiste o conflito por trás das interconexões. Socializar ou privatizar ainda mais os bens culturais criados pela humanidade? A pirataria, tão combatida pelas grandes corporações, é uma forma de burlar o controle e a manipulação das informações, não podendo ser considerada um crime. Roubados, de verdade, são os que constroem o mundo, mas não podem aproveitá-lo. Ao escolherem a doação e a liberdade de informação como atividade vital, os hackers põem em campo, ainda que muitos não o façam conscientemente, uma justa ação contra os interesses do capital em gerir e controlar os fluxos de conhecimento. (*) É escritor.

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