Opinião
O pa�s de dois contos de r�is
A partir dos anos 70 do século passado até há bem pouco tempo, a residência de Hélio e Lisette Ramalho, no Farol, foi sede de um dos mais ricos encontros da política e da intelectualidade alagoanas. Teoricamente suprapartidário, com efeito, raros eram os fins de semana em que o meticuloso notário não reunia uma seleta representatividade da comunidade; dos governadores Suruagy e Guilherme Palmeira passando por figuras, dentre tantas outras, como os jurisconsultos Marcos Bernardes e Mendes de Barros, o romancista Denis Melo e o condestável Ib Gatto Falcão, o mais assíduo e, por que não dizer, o mais brilhante. Creio ter sido uma fase de aprendizado para os mais jovens. Realmente, o curso foi completo. Da revisão da História aos fatos corriqueiros da província de então e de antanho, tendo como principais fontes a extraordinária memória de Ib Gatto e do próprio dono da casa, a relembrarem saborosas descrições de fatos e tipos. Tudo regado a selecionados vinhos e queijos, com direito a show de tango protagonizado pelo casal anfitrião. Hoje, o tema seria a briga de foice sobre o destino dos royalties oriundos da exploração do petróleo da camada pré-sal. O assunto é polêmico. A ideia prevalente de que os Estados à beira-mar são proprietários absolutos do pedaço de oceano (e dos bens) situado nos limites de suas fronteiras é, no mínimo, questionável. Face ao mau uso e à inevitável exploração política, há quem proponha deixar as reservas intocadas. Nesse emaranhado, recordei-me de pitoresco relato feito por Ramalho. Lá pelos anos 30-40 do findo século, vivia um cidadão às custas de aposentadoria de dois contos de réis, que lhe garantiam a subsistência. Bom cristão, filhos criados, netos adolescentes, a vida transcorria sem atropelos. Um dia, o sujeito é contemplado na loteria com um prêmio de 25 contos de réis. O ganho desencadearia uma corrida desesperada para a casa do sortudo. Na intimidade, a esposa cobrou antiga promessa de uma longa viagem de navio ao velho continente. Filhos e netos passariam a pressionar o aposentado por presentes caros. Sem contar com os vizinhos, os parentes distantes e até para obras pias, todos se achando legitimados a participar do rateio. Uma noite, a esposa desperta assustada e encontra o velho no quintal fazendo uma pequena fogueira. Logo a curiosidade é saciada: ?Essa fogueira é para o dinheiro do sorteio, eu sou mesmo homem de dois contos de réis?. (*) É médico e professor da Ufal.