Opinião
A detest�vel lei da vantagem
Eduardo Silva é um jovem ao mesmo tempo privilegiado e estigmatizado. Privilegiado porque embora nascido miserável, foi amealhado com talentos pessoais especiais para a prática do futebol, que o levaram a ainda adolescente ir para a Europa, onde face às suas virtudes futebolísticas, logo foi chamado para se naturalizar croata. Pouco depois, fez transferência milionária para o Arsenal, um dos mais tradicionais times ingleses, onde logo se destacou por marcar golaços que encantaram a torcida e a mídia, que passaram a idolatrá-lo. A lua-de-mel, porém, foi fugaz: no fim da semana passada, em partida da principal liga inglesa, Eduardo simulou ter sofrido pênalti que resultou em gol para o seu time. Na hora, a torcida vibrou; pouco depois, quando o telão do estádio mostrou que ele se jogara,simulando falta que não sofrera, a própria torcida do Arsenal passou a vaiá-lo insistentemente. E, mais: a mídia que até então o endeusava passou a massacrá-lo, taxando-o entre outras de desonesto e tornou o caso um escândalo, ao tempo que a federação inglesa sinalizava que vai suspendê-lo. Infelizmente, não é o primeiro caso de jogador brasileiro flagrado na esperteza e provavelmente não será o último, mas a Europa mostra que quer dar um basta na Lei do Gérson em seus campos. O agravante no caso de Eduardo é que, embora tivesse saído do Brasil há muito tempo e estivesse em contato com a cultura europeia demoradamente, não conseguiu se desprender desta marca cultural nacional maldita: a esperteza para tirar vantagem de tudo, em qualquer situação e em qualquer ocasião. É mais um talento que pode se perder pela pesada herança cultural da esperteza acima de tudo, desta deformação superar a qualidade. Herança, infelizmente que floresce e permeia todos os cantos do País e em quase todos os momentos das relações humanas, com honrosas exceções. Ao contrário de ser postura avançada, é muito mais revelação de insegurança em relação ao que sabe e ao que pode fazer; por isso, aproveita qualquer cochilo do oponente, do amigo, até da própria mulher, para passar-lhe a perna. Assim, vencer pela esperteza é sábio. Agir corretamente, vencer pelo mérito puro e simples é ser um idiota. Como esta conduta tem muito espaço nas altas esferas do poder republicano, não é de se admirar que a sociedade e, principalmente, os menos favorecidos, não podendo triunfar pela forma desonesta, recorra àquela que lhes é viável: a violência, que para quem pratica não deixa de ser forma pessoal de esperteza. (*) É médico e professor da Uncisal.