Opinião
Acordos nevoados
Não é questão secundária a polêmica sobre o anunciado ?fim da greve? do Detran. Algo mais que a autoridade da direção do órgão está em jogo, ameaçando, novamente, a população com a perspectiva de intensificação da impunidade. Indiscutível é o direito de greve, mas a ele correspondem, em igual medida, deveres e responsabilidades. A sustentabilidade do Estado de Direito é garantida pela repartição das atribuições, pelo respeito às decisões judiciais e aos ritos do processo legal. Acordos entre as partes são sempre bem-vindos no sentido de eliminação de impasses, mas é essencial que tais acordos não tenham o poder de desmoralizar as decisões judiciais e a autoridade constituída, pois nessa hipótese, toda a sociedade é desmoralizada e o Estado de Direito passa a se amoldar às conveniências de momentos e de grupos de pressão, o que corresponde a um esgarçamento perigoso do tecido democrático constitucional. Afinal, o que mesmo foi definido como arcordo entre as partes para o término da greve ilegal levada adiante por parte dos servidores do Detran/AL? Perigosamente, os termos desse compromisso apresentam-se sob penumbra, nebuloso em seus detalhes mais importantes. Pelo anunciado pelas lideranças grevistas, o acordado nos bastidores coloca em sono eterno decisões judiciais expressas e legítimas, transformando-as em letra morta e sepultada. Em assim sendo, melhor a Justiça afastar-se das querelas entre sindicatos e governo, afinal, nos capítulos finais, fica o dito pelo não dito, cai dinheiro do céu. E, entre beijos e abraços dos contedores de ontem, amanhã a conta da novela será paga, inapelavelmente, pela população ? sempre chamada a desempenhar o papel de vítima a quem o tempo perdido, o futuro espoliado, as oportunidades roubadas jamais lhes serão devolvidas, sejam quais forem os enevoados acordos de bastidores.