Opinião
A poesia de Sidney Wanderley
Depois da leitura de uma poesia é comum se ouvir de muita boca: ?Entendi foi nada?. É claro que não entendeu. Muito pouco ou zero importa o que ?pega? quis dizer o poeta. Importa, sim, o que cada qual vivenciou no que leu. Por isso mesmo não há ?um? sentido para poesia. Cada leitor uma sensação. E não tem de ficar impaciente para pegar do machado e laxar a cabeça de ninguém. Um dia, com o livro Entropia (2004) nas mãos, fui ter aqui perto de casa, na Avenida Rotary, lá na banca-assembleia do pobre botafoguense Sidney Wanderley. Eu queria dizer a ele do meu gosto para com os seus últimos acontecimentos poéticos. E pontuava. Houve um momento em que, passadas umas páginas já, e ao ler os sugestivos treze versos do poema viçosense Ontem, foi tal a minha empolgação interpretativa que o Sidney, até ali um tanto mudo, meio surpreso, apenas me continuou: ?Vou passar a adotar esta sua interpretação, Marcos. É mais viva que a minha??. Alcançáramos o ponto sensível; a poesia tomara a sua finalidade: mais sugeriu que definiu. Ontem pela tarde, ao receber pelas mãos do carteiro um pequeno envelope, cujo remetente era o Sidney, logo me lembrei daquele dia. Depois de trinta e três anos de exercício poético, um abecedário mínimo da Viçosa, dois títulos repelidos, umas antologias e uns prefácios, o meu conterrâneo presenteava-me com seu oitavo conjunto de versos: Chuva e não. Sidney está sempre se reinventando, como que numa agonia incontrolável de flagrar um erro ou eliminar uma sobra; ser muito do mínimo, e ainda conseguir um mundo de coisas. Culpa de Jorge Cooper e Raduan Nassar incitarem esta ansiedade. E está lá mesmo assim: ?A vida toda / uma odisseia íntima: / viagem de mim a mim / afinal inatingido?. Metafórica volúpia, inabalável ceticismo, branda melancolia, filosofar temporal e ironia laminosa são seus elementos, ao lado das notas de suas leituras colecionadas em pastas muito das organizadas e de que lança mão nas suas composições um tanto eruditas e incompreendidas lá fora, de Heidegger a Joyce, Berkeley, Marx-Engels, Drummond, Sartre, Borges, Heráclito, Montaigne ou algum livro de biologia, de química ou de física. Aprendiz do computador, após anos de teclas datilográficas, Sidney se mantém no patamar de nossos poucos poetas provocantes, lúcidos, desapressados e autocríticos. E ninguém julgue no que digo ser coisa de combinação entre viçosenses muito dos convencidos no seu bairrismo. (*) É cientista social e mestrando em Sociologia.