Opinião
O mercado das almas
Eu até respeito a fé das pessoas. Penso que cada um pode acreditar no que quiser. Contudo, o mundo está tão à beira do caos que não basta apenas crer para ser salvo. Hoje, mais descaradamente do que nunca, é preciso pagar caro para ir ao ?paraíso?. Um investimento sem retorno garantido e que custa os olhos da cara. Os escândalos envolvendo as falcatruas financeiras do bispo Edir Macedo, dono da Igreja Universal do Reino de Deus e da Rede Record, levaram-me a uma instigante reflexão: a de que Deus, talvez, seja a invenção humana que mais deu (e dá) lucros ao longo da história. Sabe, eu fico até na dúvida. Para fazer dinheiro fácil, é melhor fundar um banco ou uma igreja? Cotidianamente, nos templos e nas TVs, ocorre uma acirrada disputa de mercado. São diversas facções religiosas concorrendo entre si para ver qual delas engana o maior número de fiéis. As promessas mais absurdas são feitas em troca de exigências financeiras cada vez mais imorais. Em nome de Deus, pede-se de tudo: dinheiro, casas, carros, vale transportes e até tíquetes alimentação. A Igreja Universal, por exemplo, defende uma Teologia da Prosperidade. Prosperidade do bispo Edir Macedo e de seus pastores, claro. Ao que parece, o mercado das almas é tão lucrativo quanto o mercado financeiro. Entretanto, arrancar dinheiro de bilhões de seres humanos infelizes e desesperados não é privilégio apenas do protestantismo, que encontrou no capitalismo sua verdadeira alma gêmea. A Igreja Católica não deixa nada barato. Durante séculos, a grande senhora da Idade Média condenou a usura. Dos outros, evidentemente. Na época, porém, ela vendia de tudo: desde indulgências até incontáveis ossos do corpo de Cristo, o que me fez chegar à conclusão de que Jesus, por causa do grande número de fêmures, não era um homem, e sim uma centopeia. Hoje a Igreja Católica vende padres cantores e uma infinidade de quinquilharias da fé. Além, é claro, de possuir um 1/5 de todo o patrimônio imobiliário da Itália, o que fez o Vaticano lucrar 1,47 bilhões de euros com a especulação entre os anos de 2004 e 2005. Para as igrejas, semear ilusões acerca de uma vida melhor após a morte não é suficiente. Sem o menor pudor, os profetas oferecem uma esdrúxula modalidade de credo: a ?fé pegue e pague?. Quando eu era garoto, sempre me disseram que Deus morava no céu, nas nuvens ou até mesmo no coração dos homens. Atualmente, sei que isso não é verdade. Ao que tudo indica, Deus vive em Nova York, mais precisamente em Wall Street. (*) É jornalista e escritor.