Opinião
As mais cru�is e perversas
Até que ponto a mente humana pode criar e instituir mecanismos de tortura e sofrimento para outros seres humanos? O Novíssimo Almanaque Melzi, encorpado calhamaço, com 4.260 gravuras, 78 tabelas de nomenclatura figurada, 1.050 retratos, 12 cromolitogravuras, editado por Atonio Vallardi, em Milão na Itália, dá com detalhes escabrosos muitos exemplos desta sanha malsã. No Novíssimo Melzi estão descritas inclusive com figuras as torturas mais utilizadas na história da humanidade dita civilizada. São muitos os suplícios ali catalogados; a fervura, a crucifixão, a aguilhão, com a vítima içada e depois largada com os glúteos sobre uma almofada de pontas de ferro afiladas, a grelha, o enterramento, a pira, a roda, o esfolamento, o espeto, a serra, paródia atroz de um espetáculo de prestidigitação, com o condenado em uma caixa de dois carnífices com uma grande lâmina dentada, salvo, que aqui o infeliz era ao fim realmente serrado em dois pedaços na longitudinal, o esquartejamento, o arrastamento com o condenado ao rabo de um cavalo, o torniquete. O Novíssimo Melzi ilustra um total de trinta tipos de torturas, das quais consegue destacar como piores a fogueira e o empalamento, se é que se pode avaliar e hierarquizar o que pode ser pior em se tratando de crueldade humana. O jornal O Globo de domingo passado trouxe uma extensa matéria sobre violência no Nordeste, onde Alagoas é o destaque negativo por sermos a capital mais violenta da região, ao que parece do País e a justificativa do Ministério da Justiça para esta grande desgraça que infelicita todos os alagoanos é que, independente de ações de governo, isto seria em decorrência de crimes de mando ? um intolerável e insuportável estigma de nossa terra que precisa ser combatido vigorosamente. A taxa de assassinatos em Maceió é mais do que o dobro de cidades como Natal, Aracaju e João Pessoa. Todas as formas de violência são abomináveis, mas algumas delas, como este crime bárbaro do jovem Fábio, cujo pai é nosso colega professor da Uncisal e um dos profissionais mais íntegros e corretos que já conheci, conseguem superar todas as outras em animalidade e bestialidade. Nada justificaria este crime e, é uma vergonha inominável que sejamos a cidade mais violenta do País justamente por crimes de mando, esta forma de criminalidade que supera todas as outras em covardia e iniquidade, para a qual as autoridades públicas têm que voltar toda a sua atenção e força para combatê-la. (*) É médico e professor da Uncisal.