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Opinião

O mito ainda hoje

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DOM FERNANDO IÓRIO * Entre as inúmeras interpretações do que seja o mito, encontramos aquela que é resultado de valores, qualidades e prodígios atribuídos a determinada pessoa não condizentes com suas reais características. Transforma-se, assim, o ídolo ou mesmo o herói em um mito quando os predicados que se lhes atribuem não coincidem com a realidade que eles representam. Ayrton Senna é um ídolo do automobilismo, na Fórmula 1, e não um mito, porque as vitórias que se lhe atribuem são reais e não falsas. Frei Damião é um ídolo do povo enquanto lhe são atribuídas virtudes de que era ele dotado. Mas desde quando ao grande missionário capuchinho são acrescentados fatos prodigiosos nunca por ele realizados, estamos perante o mito: Frei Damião. O mito continua presente, ainda, nos dias atuais. O mais comum é o mito da ?mulher ideal? e do ?príncipe encantado?. Será que o adolescente, quando se encanta por uma jovem, procura ver nela quem realmente ela é? O apaixonado não percebe o outro como realmente ele é; imagina-o como objeto de seu encantamento, de seus desejos maiores de beleza indizível. Trata-se do encantamento incomensurável pelo outro, da mitificação do ser amado. O ser amado não é admirado pela sua verdadeira e autêntica beleza, mas por valores prodigiosos criados pelos sonhos, por qualidades deslumbrantes que nunca possuiu. Mitifica-se o ídolo. Com efeito, no imaginário vamos transformando o outro na pessoa de que necessitamos. Só procuramos ver no outro aquilo que queremos. A capacidade de tornar a pessoa amada na coisa mais perfeita do mundo é a forma mais feliz que muitos encontram para prelibar da felicidade. Quando mitificamos o outro, atribuindo-lhe valores e características deslumbrantes que ele não possui, estamos procurando amar nele as nossas projeções, estamos amando a nós mesmos. Durante a vida a dois, multiplicam-se as reclamações: - Ele não era assim antes; - Ela mudou muito, depois de casada. Ao contrário: ele sempre foi assim; ela não mudou tanto. A mitificação mútua impediu que os dois se conhecessem como, verdadeiramente, eram. Não há como negar: a convivência matrimonial é dos grandes caminhos para a desmitificação. Só o verdadeiro amor permite certas desmitificações sem maiores ruturas relacionais. Faz-se mister desencantar o mito com que encantamos o outro para possuí-lo como, na verdade, ele é, na sua plena objetividade. (*) É BISPO DE PALMEIRA DOS ÍNDIOS

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