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Favela de Jaragu� – uma testemunha da indiferen�a

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Na história do bairro de Jaraguá há momentos marcantes, como a passagem da legião de Maurício de Nassau pelo porto natural do ?Jaragoa?, em 2 de abril de 1637, segundo Barlaeus, com destino à Vila de São Francisco, confirmando assim a vocação portuária do bairro. Da mesma forma, e 300 anos depois, precisamente, em 1943, o desmonte da Ponte de Embarque, construída em 1870, que ficava em frente ao Misa. O local à essa altura não era mais coberto pela maré que havia recuado, após a construção do Porto de Maceió. O espaço, terras de Marinha, ficou abandonado até ser ocupado por famílias de pescadores que, mais tarde, construíram abrigo para venda de pescados. Não precisa ser historiador para saber que a Favela de Jaraguá foi gerada pelo êxodo rural, pelo empobrecimento da população e pela falta de alternativas no mercado de trabalho. Conte-se aí uns 60 ou 70 anos de existência daquela comunidade. Comunidade que sobreviveu às incertezas econômicas do País, sem amealhar riquezas, nem a dignidade sequer de uma moradia decente. Enquanto o crescimento demográfico atingiu periferias, cada vez mais distantes, as cerca de 500 famílias permaneceram trabalhando com o pescado, num bairro mais próximo de duas escolas públicas para os filhos e da população consumidora de seus produtos. O bairro histórico coroado pela riqueza do alvorecer do século 20 caiu no abandono na mesma época em que a população rural se deslocava e se abrigava em mocambos naqueles entornos. Jaraguá foi esquecido. Evitava-se passar por ali. Era impróprio às famílias de bem. A boemia já estava decadente como seus cabarés e mulheres. Até o Palácio do Comércio envelhecera no abandono enquanto seus casarios definhavam. Só a intervenção do Estado e município pode devolver ao bairro a lembrança do seu esplendor. Jaraguá se renovou a ponto de ser repovoado de atividades econômicas e culturais importantes. Mas, a emblemática peja da degradação, da delinquência e da miséria continua a persegui-lo. E nessa nova ordem de mudança da urbe alagoana vem o cepo à Vila dos Pescadores. É preciso acabar! Passar o trator! A Vila dos Pescadores é hoje também oficialmente um Ponto de Cultura registrado no Minc e ninguém deseja ver o lugar transformado e sua gente degredada de sua fonte de sobrevivência. Não seria mais acertado e humano, como sugeriu o próprio presidente Lula, na sua visita a Maceió, construir casas para seus moradores e deixá-los onde estão? (*) É escritor.

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