Opinião
O lix�o das crian�as pobres
De repente, todo mundo acorda: uma criança de 12 anos morre tragicamente no lixão, aqui em Maceió, esmagada por uma máquina que operava os dejetos urbanos. E aí surgem salvadores da pátria, emoções efêmeras, soluções mirabolantes, até que o tempo se encarregue do retorno à insensibilidade dos homens. E o poder público, sempre à deriva dos acontecimentos, tenta encobrir a sua incompetência, com ações impensadas e, na maioria das vezes, inócuas. Se crianças vivem no lixão é porque há razão para tal: pobreza, miséria, falta de oportunidade, sociedade insensível. Então, vamos repensar o lixão, uma vez que o aterro sanitário é uma obra de alto custo, capacidade limitada e de difícil manejo. Em uma área de dez hectares (a definir), seria instalada uma espécie de ?Fazendinha do Menino Agricultor? (FMA), utilizando-se o adubo orgânico produzido com técnicas simples de compostagem e a energia oriunda de biodigestores para iluminação e ativação de maquinários agrícolas e domésticos. Implantar-se-iam: uma horta para produção de folhagens, tomate, pimentão, cenoura e quiabo; uma área de pastagens para vacas e/ou cabras de leite, com suplementação de ensilagens; um pequeno aviário, com maior ênfase na produção de ovos; um talhão de fruticultura (mamão, banana, maracujá e goiaba); plantios de macaxeira, cana-de-açúcar e batata doce; cultivos de flores. Todos, produtos orgânicos, sem adição de agrotóxicos. Além dos produtos in natura, uma parte seria ?mini-industrializada?, a exemplo de derivados do leite, doces e sucos. Adicionalmente, haveria um infraestrutura escolar, propiciando aulas pela manhã e atividades de aprendizagem agrícola, com a mão na massa, pela tarde, ou inversamente, facultando uma formação eclética para o futuro. Dessa forma, estariam sendo atendidos os aspectos sociais (oportunidades às crianças pobres), econômicos (renda auferida dos produtos), ambientais (contensão dos gases poluidores e das águas de lixiviação) e de cidadania (formação de jovens para a vida futura). A captação dos lixos urbanos teria que ser selecionada de modo a que os dejetos orgânicos fossem individualizados e despejados em trincheiras e/outros sistemas de cura, que seriam a base da FMA, pela produção dos insumos agroenergéticos. Os outros materiais seriam destinados à reciclagem para os pais dos menores envolvidos no projeto, integrando-se a família, ademais da opção de mão-de-obra para as atividades agrícolas na fazendinha. (*) É engenheiro agrônomo e consultor científico em solos tropicais.