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M�meses

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Já dizia o bom e velho Aristóteles, na Arte Poética, que há uma tendência natural no homem para a imitação e de nela sentir prazer. Era o conceito primitivo de mímese (do grego mimesis = imitação/representação) referido pelo filósofo, para explicar o surgimento da Literatura. Pois bem. A noção primeira de mímese não empaca no teatro, na prosa ou na poesia (nem na mímica, como talvez esteja pensando). Ela se estende e se atualiza na sociedade, na sua rua, na sala de sua casa. Cada pessoa sob certames e ditames morais, afetivos e ideológicos os imita, classifica-se e se representa, dando, por conseguinte, significados ao seu meio, ao passo que estabelece diferenciações sociais entre as pessoas, reforçando assim o poder de coerção da sempre perversa sociedade. Sshh! Chega mais e lê baixo! Cá entre nós, sejamos francos ? leitor, leitor meu, existe povo que imite mais do que o seu? Por gostar tanto do alheio suponho que não. Mas o épico, o trágico e o cômico é que imita mal. Imitação da imitação, a cópia da cópia dos outros ? o nepotismo das prefeituras do interior, boa parte de nossa música, do nosso teatro e das nossas letras, e, quem diria, até o nosso folclore (agora com o maracatu, o cosplay e o mangá em prejuízo do guerreiro, do pastoril, da chegança, do boi-bumbá). Ao que parece a dita ?alagoanidade? está em qualquer lugar, menos em Alagoas. Pior, a cultura alagoana não está lá fora, mas toda a subcultura exterior está aqui dentro. Cumpre ainda desconfiar do jeito alagoano de governar. Será que, em virtude dessas representações, nossos políticos fingem governar, e nós fingimos ser governados? Quem sabe se a plena democracia não vinga por causa da mímese? Tem mais: já se perguntou se o que você demonstra ser não é o que os outros (incluindo a telenovela e os comerciais) querem que você seja? Se for, ?seus problemas acabaram?, Freud explica. O ruim nesse emaranhado de representações, de imitações é o contínuo enxerto de razões alheias que nos fazem sem promover o que é nosso. Impelidos por isso, seguimos constituindo um povo, uma sociedade mais marcada pela memória (alheia) do que pelo (seu próprio) entendimento; trocando em miúdos, uma sociedade politicamente emancipada, culturalmente retraída. Entretanto, a esse assunto, vale uma exortação do padre Antônio Vieira (1608-1697) do Sermão da Sexagésima (parte 7): ?As razões próprias nascem do entendimento; as alheias vão pregadas à memória. E os homens não se convencem pela memória, senão pelo entendimento?. (*) É estudante de Letras da Ufal.

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