Opinião
Aus�ncia da terra natal
Recebi uma carta de um amigo que mora em São Paulo e que está afastado de Maceió há quarenta anos. Surpreendentemente, não veio aqui uma única vez. Conheci-o em terras paulistanas, onde cursou medicina, tornando-se conceituado médico. Um tipo inesquecível, senão pelo aspecto físico, mas pelas características especiais: imaginação fértil, espírito comunicativo, simplicidade. Sempre imprevisível, irônico, inteligente, sabia encontrar a palavra certa, na hora certa, para ?quebrar o gelo? num grupo em que a maioria era de pessoas estranhas, deixando-as inteiramente à vontade. Alegria e bom humor são a tônica de seu temperamento. Talvez essas características tenham contribuído para o sucesso de seu desempenho na clínica e no hospital em que trabalha. Muitas vezes, uma palavra de conforto vale mais do que qualquer medicamento. Ele costuma dizer que apenas podemos distribuir felicidade, quando a possuímos. Diante da relatividade de quem habita nos grandes centros, em que predominam correrias, estresses e horários a cumprir, ele é, sem dúvida, um homem feliz. Jamais ouvi dele uma queixa. Não se cansa de afirmar que uma cortesia custa pouco e vale muito. A Maceió de que ele se lembra, certamente, já não é mais a mesma. Passaram-se quarenta anos de ausência desta terra de muito sol, emoldurada pelo azul safírico do Atlântico e pelas águas plácidas da Lagoa Mundaú. Aqui, ele encontrará nova feição urbanística na vertigem do redemoinho do progresso material; assim como: inovações sociais, educacionais, econômicas e culturais. Mas, as tradições de nossa gente não mudaram: fidalguia, cordialidade, hospitalidade e simplicidade em receber e em obsequiar. Contei-lhe uma piada que, com certeza, não será sua primeira impressão ao chegar ao Aeroporto Zumbi dos Palmares. ?Um nordestino que viajava sempre ao Sul encontrou no avião um conterrâneo que, há quarenta anos, não ia à sua cidade natal, no interior do Piauí. Um mês depois, reencontraram-se na mesma aeronave em que viajaram. E aí, as perguntas clássicas: ?O que achou da sua terra? Houve muitas melhorias, mudanças e transformações, nesses anos de sua ausência??. O outro, como se estivesse decepcionado, respondeu: ?Nada de novo, porém, uma única coisa me chamou atenção ? pintaram o grupo escolar??. Eu acredito que o meu amigo ? tal qual uma ave que volta ao seu ?habitat? ao entardecer da existência ? se ajustará à nova Maceió, que em nada se parece com a do passado, com defeitos e virtudes de uma metrópole que se expande. (*) É médico.