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Opinião

O vampiro especulador

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Estava em casa. Era uma manhã ensolarada de domingo. Soprava uma brisa constante, agradável. Nada obrigatório por fazer, nenhuma responsabilidade a cumprir. Ouvi, ou li, amicíssimo leitor ? já não recordo onde nem quando ? que os dias de domingo não são dias, mas, um estado de espírito. E, nesse domingo, eu estava em estado de graça. Tinha todo um dia a ser preenchido com o mais puro ócio. Reúno todos os jornais e revistas que ficaram desgarrados durante a agitada semana e refestelo-me com eles no sofá. Animado, inicio pelos jornais. Escolho um, ao acaso. Abro-o. Folheio-o. Deslizo os olhos pelas manchetes e... Tomo um susto. Deparo-me com uma foto de um sujeito, com as mãos crispadas, um rosto exageradamente comprido, aparecendo na boca entreaberta uns caninos desproporcionais, em tamanho, ao resto dos dentes. Na foto, a cor do paletó era preta, o que lhe acentuava o aspecto funéreo. Digo de mim para mim mesmo: triste forma de iniciar um domingo. Ele, representante de uma construtora, lamentava a ausência, nos bairros das áreas nobres de Maceió, de investimentos, por parte do poder público, em eletrificação urbana, esgotamento sanitário, fornecimento de água etc. E ameaçava, sim, dileto leitor, esta é a palavra, ameaçava com a fuga ?das cinco grandes construtoras que entraram no mercado alagoano?, e ainda arrematava, com a empáfia comum aos arrogantes, que ?a cidade deve se tornar atrativa e viável economicamente?. O Drácula, como um arauto, lançava mão das suas fanfarras e apregoava suas verdades como se elas fossem convenientes a todos os habitantes de Maceió. Ao chegar nessa altura da entrevista, já me surgiam, como dois enormes monolitos de mármore, duas indagações que, infelizmente, não lhe foram feitas. A primeira: infraestrutura para quem e onde? A segunda: a cidade deve se tornar viável e atrativa para o quê? Sim, sensibilíssimo leitor, estas perguntas deveriam ser feitas ao sujeito com as feições de Nosferatu. Infelizmente, as nossas cidades continuam reféns de interesses privados. As camadas mais pobres, mergulhadas na mais abissal desesperança, ocupando, em sórdida miséria, os espaços precários, desprovidas das infraestruturas, equipamentos e serviços que caracterizam a urbanidade, não conseguem interferir na trama de interesses que regem as nossas urbes. Lamentavelmente não há um conjunto de forças suficientes para orientar a ação do Estado e as políticas públicas para um projeto de cidade onde não prevaleça apenas o que convém à iniciativa privada. (*) É engenheiro da Casal.

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