Opinião
P�ssimo exemplo
Escondidos atrás do parapeito da janela, não dava para o transeunte ver quem tinha praticado tal arte. Os dois, vizinhos desde pequenos, eram mestres em reinações que, logo, logo, traziam reclamos para os pais. Já lá se vão sessenta anos, em uma rua chamada do Macena, depois Cincinato Pinto, centro de Maceió, no trecho entre a Av. Moreira Lima, antiga 1º de Março, e a Praça Mal. Deodoro. Movimento tão calmo que parávamos um bom bate-bola para passar um carro. Carlos Jorge Bezerra Barros, hoje promotor de Justiça aposentado, era filho caçula, como eu. Seus pais, ?seu? Joãozinho e d. Dalila e os meus, perguntavam se não queríamos mudar de casas, tal a frequência de um na casa do outro. Certa vez, estávamos na dita janela da casa do Jorge quando nos veio a ?ideia?. Lembro como hoje; um grande vaso de vidro, cheio de ovos, em cima da mesa de jantar. Enchemos a mão e fomos para nossa trincheira. Um carro aqui, outro mais tarde, e nós, treinando a pontaria. Vez que acertávamos um carro, fechando logo a janela, sem sermos descobertos. E foi de minha mão que saiu o ovo que atingiu o rosto do motorista do carro de praça ? antigo táxi. Não preciso dizer que, descobertos, fomos castigados. Pela vida afora convivi com esse mesmo tipo de trela, com filhos e agora com netos. Morando há algum tempo em apartamento, não era e não é raro nos surpreendermos com objetos devolvidos pelo zelador, jogados sem maldade por esses reinantes. Houve casos onde existiu a intenção de atingir alguém, com coisas pequenas e de peso insignificante. Mas, tudo que descrevi, não teve nenhum estímulo, nada que levasse, tanto ao Jorge e a mim, quanto aos meus filhos e netos, à prática dessas traquinagens. Nasce da mente criativa, embora ingênua, da criança. Imaginemos então, oferecendo com bastante tempero, a essa turma trelosa, um bom motivo, exemplo a ser imitado. É o caso de uma publicidade, veiculada em emissoras de televisão, na qual são jogados pela janela de edifícios sofás, poltronas, cadeiras, mesas e demais apetrechos caseiros, como sendo coisas velhas, já imprestáveis, para serem substituídos pelos produtos oferecidos em promoção de venda. E, pasmem, vem de uma das mais sofisticadas lojas do ramo. Pode até atingir seu objetivo promocional, mas peca pelo lado institucional. Talvez seja difícil um pequeno traquina jogar sofás pela janela, dado o peso. Porém, quem sabe, a cadeirinha dele mesmo, no intuito de uma nova, ganhar? (*) É bacharel em Economia ([email protected]).