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O fantasma do golpe

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Com ares de tragicomédia latina, a démarche do caso Zelaya é emblemática de um conjunto de mal resolvidas contradições contemporâneas, conflitos esses que deveriam merecer mais atenção e mais racionalidade por parte das lideranças sociais, intelectuais e políticas. Um conjunto importante de valores democráticos está em jogo no trepidar da crise hondurenha. O mais importante deles é o perigo do retorno das soluções abertamente golpistas para as contendas políticas e eleitorais. Em seguida temos as questões gerais como: possibilidades de mudanças nas regras constitucionais; reeleições sucessivas; autoridade dos fóruns internacionais; inviolabilidade e despartidarização das embaixadas, dentre outras questões vitais para a civilidade. A primeira das questões deve ser encarada como questão de princípio: repúdio a qualquer tipo de golpe. Além da trágica história das sangrentas quarteladas que, até recentemente, foram endêmicas na América Latina, não devemos nos esquecer de que tal prática antidemocrática causa grandes prejuízos à cidadania, mesmo quando não são vitoriosas, como se pode verificar no episódio onde uma tentativa frustrada de golpe contra Hugo Chávez terminou servindo de plataforma de lançamento de um projeto continuísta, populista e marcadamente autoritário, empalmado pelo personagem que se pretendia depor. Não há por que se tergiversar sobre esse ponto. Golpes (mesmo autointitulados de ?contragolpes?) não são mais admissíveis. De resto, uma vez cometido o primeiro deslize, vê-se o que todo mundo hoje pode ver: uma sucessão de perigosas trapalhadas, bazófias, egocentrismos, jogos de cena e, desgraçadamente, mortos como produto inevitável da radicalização de posições sectárias e autoritárias (de ambos os lados). As demais questões, todas polêmicas, são consequências do primário erro do golpismo.

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