Opinião
Continuando nossa visita � casa de Beethoven
As fugas e variações feitas quando Beethoven era menino, impressionaram tanto o jovem príncipe Maximiliano Franz, que o nobre resolveu patrocinar os estudos desse garoto talentoso, entregando-o aos cuidados de um dos maestros da corte. Mostrou-nos, o guia, o velho piano feito especialmente para Beethoven. Parecia-nos que suas teclas se moviam e, de repente, o ambiente se enchia dos acordes tristes e tranquilos da Sonata Patética, ou dos sons rebeldes, vigorosos e paradoxais da Quinta Sinfonia, que em frases, ora agressivas, ora suaves, descreve a luta do próprio autor com o destino inexorável. Percorremos outras salas e vimos alguns dos instrumentos utilizados por Beethoven. Lá estava o velho órgão do qual o menino, aos dez anos, tirava os sons maviosos que enchiam a vasta nave da catedral de Bonn. Suas mãozinhas, então pequeninas, não alcançavam as oitavas de suas próprias composições. Um violino e um violoncelo descansavam, melancolicamente, sobre a prateleira de uma estante. A um canto examinamos o excelente documento conhecido por ?Testamento de Heiligenstadt?, feito por Beethoven, quando, acometido por um súbito ataque cardíaco, perdera a esperança de sobreviver. São palavras comovedoras, quase inteiramente dedicadas à humanidade, em que ele extravasa seu íntimo recalcado, seus sentimentos, sua vontade e sua força sobre-humana para resignar-se à surdez que o dominava, à falta do sentido de que mais necessitava. ?Oh, isso é demais para mim?, escrevera ele. ?Perdoai-me quando me virdes fugir, pois que eu gostaria de estar entre vós! Meu infortúnio é uma dupla tristeza, pois faz com que os outros me interpretem mal. Nunca mais terei a alegria que vem do convívio humano, das conversas elevadas e das confidências mútuas. Só permaneço na companhia dos outros, quando isso é absolutamente necessário. Sinto-me só e devo viver como um exilado?. Na sala da frente, estavam enfileiradas, dentro de vitrine, inúmeras trombetas acústicas usadas por Beethoven, que aumentavam de tamanho de acordo com o avanço da surdez que, pouco a pouco, lhe fechava os ouvidos, criando um paredão invisível entre ele e o mundo. Tinha 27 anos quando sentiu, pela primeira vez, que sua audição diminuía, a doença progredia. Beethoven recebeu abatido a provação imposta pelo destino, mas enfrentou sua desventura corajosamente. Saímos da casa de Beethoven admirando-o ainda mais! Sua lembrança continua impregnada na história cultural dessa cidade tão alemã. (*) É sócia efetiva da Academia Alagoana de Letras.