Opinião
A tecnologia acima do bem e do mal
Quem não já se deu conta da faxina diária que faz em sua caixa postal. É o que podemos chamar de lixo digital, derramado pela internet em nossos endereços. As pessoas abusam! Remetem orações, piadas, vídeos, pornografia, propaganda e um monte de asneiras. Não existe descanso. Todos os dias, internautas desocupados descarregam suas energias ou frustrações. Para quem já vive assustado com spans e vírus, morre de medo dos anexos, geralmente, com observações para clicar, se não abrir. Mas é uma tarefa desgraçada a de separar o ?joio do trigo?. Terminamos por apagar o que não devia. Falta paciência. O tempo é curto. Não há condições de abrir cada mensagem e olhar o que serve ou não. Arrisca-se pelo ?assunto? ou pelo ?remetente?. Mas a velocidade da informação é tão grande que outra mensagem já entra quando atualizamos. Que fome é esta de comunicação? Dez anos atrás, não éramos assim. Bastava uma cartinha ou cartão postal que líamos mais de uma vez e até guardávamos. Era romântico! Agora é uma febre tão grande que até o filho envia e-mail para a mãe e o pai, mesmo vivendo na mesma casa. Usa-se o MSN de um quarto para o outro num apartamento de 80 metros quadrados. E sala de bate-papo é terapia. As fantasias rolam por trás dos fakes. As relações virtuais ficaram com intimidade espantosa, mesmo quando a relação social efetiva nem existe. Muita gente nunca se viu fora do Orkut, embora troquem carícias textuais. Todo mundo parece se amar, numa relação tão diferente e às vezes tão promíscua, que desmonta os cursos de Ciências Sociais. Comunidade virtual é um grupo de pessoas que nem se conhecem, mas compartilham do mesmo objeto. E nesta lista de inconveniências virão as mensagens dos futuros candidatos para 2010. Os santinhos virtuais estarão nos recados do Orkut. Possivelmente, a faxina diária será ainda maior. Por mais democrática que seja, a internet é também coercitiva, agressiva, impulsiva, sem falar, licenciosa. Não há como se desconectar a esta altura dos acontecimentos. Esconder o endereço, uma alternativa. Mas quando a mensagem vai, o destinatário repassa e o e-mail é divulgado. Não há mais privacidade. O endereço do e-mail passa a ser tão precioso quanto o residencial. E não é só pelo abuso do lixo, é o perigo dos hackers, que são, igualmente, criminosos. Neste terceiro milênio, estamos vivendo no limiar da tragédia. A tecnologia é o ?jardim das delícias? e entre o bem e o mal, a escolha é cada vez mais difícil. (*) É escritor.