Opinião
A rosa
GILBERTO DE MACEDO * Nada no mundo compara-se à riqueza simbólica das flores, sobretudo das rosas. Nestas, cabe tudo de belo e de encanto, da contemplação e da imaginação. É a fonte universal da inspiração, dos mais aperfeiçoados atos sentimentais: da declaração de amor, da homenagem, da comemoração, da solenidade, da solidariedade, da amizade, da admiração, do respeito, de devoção. Símbolo da beleza e do bem. Assim é a rosa. Tudo de belo na vida encontra nela um indicativo de reverência e enlevo. Todas as formas de bondade estão nela representada. Por tudo isso comove-nos. A quem oferta e a quem recebe. Cantam-na os poetas ? das letras e das músicas, particularmente quando associadas à imagem feminina, vinculada aos envolventes sentimentos da paixão. Reverenciam-na os religiosos, em seus rituais de devoção. Meditam sobre elas os filósofos, em busca do sentido da beleza. Estudam-na os cientistas buscando descobrir os mistérios do harmonia da Natureza. Fixam-se nela os artistas, admirados com a perfeição do modelo, com a formosura da cor, e a forma das pétalas. Encantamo-nos todos nós, deslumbrados ao contemplá-la. De tão perfeita e incomparável é a sua beleza que não se sabe descrevê-la, nem defini-la, da razão do poeta Gertrude Stein dizer: ?Uma rosa é uma rosa, é um rosa?. É sempre rosa. Toda rosa. Inteiramente rosa. Não somente no âmbito íntimo da vida pessoal. Também nas relações humanas da sociedade, a rosa dá significado ao ritual. A oferta de uma rosa é a mais distinta forma de gratidão, de reconhecimento, de agradecimento; é a mais sincera e pura declaração de amor: é dádiva de coração; é a mais tocante presença na hora da tristeza; e a mais comovente na última despedida. É assim presença generosa na hora da chegada e no adeus. Está no âmago da vida humana. Dá sentido à existência. Faz-se presente em todos os grandes atos do destino. Por isso, está presente em todas as formas de inspiração. E, assim, tanto se ouve falar dela na música popular que canta a alma do povo: ?Eu quero a rosa mais linda que houver para enfeitar a noite do meu bem... ?É que a mesma é dotada de riquíssimas conotações sentimentais, donde a inspiração do poeta Fernando Pessoa aconselhar: ?Ama as tuas rosas dando as rosas, da coroa feita com amor e arte?. É que a visão da rosa é momento de alegria, de profunda felicidade. Vê-la desabrochando no jardim, acolhida pelas outras flores, acolhida pelo verde das folhagens, é como um despertar radiante para a vida. Assim, ainda canta-se no romantismo da música popular. ?Nada como ser rosa nascida, / ou mesmo, rosa-mulher. / Todos querem bem à rosa, / também quero eu...? E nessa outra alegria, bastante representativa de nossa cultura brasileira: ?Rosa, Rosa, morena Rosa/ aonde vais com essa rosa no cabelo, / com andar de moça prosa... Anda Rosa, vem me ver?. Rosa como categoria universal de beleza, seja no plano humano, do nome de pessoa, seja literalmente imediato, no plano vegetal, referente à flor, tudo isso que se vê no romantismo popular da nossa cultura. É a Rosa-pessoa, e a rosa-flor. Beleza vegetal ou beleza humana, flor ou pessoa, figura ou imagem, pessoa ou símbolo, a rosa enriquece a existência, contemplada ou imaginada. Cultivar, pois, a rosa, na Natureza, e no coração. (*) É MÉDICO