Opinião
O sentido social da Olimp�ada
Amo o Rio de Janeiro. Ali, passei várias das férias do curso de Medicina, estagiando no Conjunto Sanatorial de Curicica, Hospital-Escola, especializado em doenças do aparelho respiratório. Naquela época, e já lá se vão cinco décadas, não se falava em violência, em drogas, e a cidade era conhecida lá fora pela musica, carnaval e futebol. Morros ocupados por traficantes, guerra de gangues, violência urbana, medo são coisas bem mais recentes. Torci para que o Brasil fosse escolhido sede da Olimpíada, por duas razões inteiramente pessoais: desejava a derrota da cidade de Chicago, porque se ela vencesse estaria provada, mais uma vez, a hegemonia e o domínio dos americanos, na imposição da candidatura dessa cidade. Barack Obama e Michelle (esposa) tentaram roubar a cena; por outro lado, por achar que o Brasil pode se beneficiar num ângulo que merece ser pensado com carinho: olhos voltados para o social, incentivo à juventude e ao esporte amador, educação física nas escolas, inclusão de garotos de nossas periferias, talentosos, que, fatalmente, poderão ser incorporados às drogas pelos traficantes. As comemorações em torno da escolha do Rio de Janeiro para sediar as Olimpíadas e as Paraolimpíadas de 2016 estão sendo intensas. Também pudera, seremos a primeira cidade da América do Sul a alcançar tamanha faceta. O projeto de revitalização é ousado e trará importantes benefícios de infraestrutura e econômicos para a cidade maravilhosa. Muito mais a desejar: esporte como fator de saúde pública, inclusão social, formação do cidadão e desenvolvimento da justiça social. Se o País acordar para estes pontos ? e ninguém passa, repentinamente, ?do pátio dos milagres, para as mil e uma noites? ?, terá tudo para se tornar uma potência olímpica em seu sentido mais amplo. Sediar as Olimpíadas, por si só, já traz a magia do esporte. Estamos cansados de saber que crescimento econômico, por si só, não significa desenvolvimento, no sentido mais amplo da palavra, que pressupõe, principalmente, desenvolvimento social. O que esse grande projeto fará por esse aspecto tão importante e complexo da realidade brasileira? Somente o tempo dirá, nesse País de tão grandes complexidades. Além disso, muitas outras atividades profissionais podem ser incentivadas a exemplo de guias turísticos, educadores físicos, gastronomia, relações públicas, entretenimento e outras opções ligadas diretamente aos esportes olímpicos. (*) É médico e ex-secretário de Educação e Saúde.