Opinião
Crian�as em bandejas
Dos indicadores informais que podemos usar para medir o quanto a nossa sociedade fracassou em sua estruturação, talvez os mais visíveis e consistentes deles sejam a irresponsabilidade e a negligência com as quais vêm sofrendo as crianças, pois um sistema em que os mais inocentes estão pagando pelas falhas do modo de viver coletivo, definitivamente não presta. Em novembro de 2008, uma menina de 9 anos foi encontrada morta dentro de uma mala numa rodoviária do Paraná. Voltava sozinha da escola, quando foi levada por alguém que a violentou e matou. Pouco depois, outra menina, de apenas seis anos, foi brutalmente violentada e morta em Minas Gerais, após uma covarde sessão de pontapés, finalizada com uma faca cravada e deixada no coração. Estava indo brincar na casa de uma amiga e também caminhava sozinha. No famoso desaparecimento da britânica Madeleine, os pais irresponsáveis foram jantar e deixaram-na num quarto de hotel com com seus irmãos gêmeos, ainda mais novos do que ela. Esta semana, duas irmãs, com apenas 4 e 6 anos, foram violentadas e mortas em Maceió, entrando para o triste rol de vítimas infantis (geralmente pobres) que vem crescendo em Alagoas. Após ler ou ouvir notícias com tamanho grau de bestialidade, a fúria de quem as ouve ou lê volta-se naturalmente contra a figura do agressor, do monstro capaz de machucar seres frágeis e inocentes. Mas, nessas ocasiões, é inevitável lembrar também dos pais ou responsáveis pelas vítimas, e questionar como é que alguém, nos dias de hoje, permite que crianças com tão pouca idade estejam sozinhas e se exponham com tanta facilidade à ação de malfeitores. Adultos desse tipo conseguem a proeza de não incorporar um dos maiores instintos, que é o da proteção aos descendentes. Agem como serviçais para bárbaros, expondo seus filhos em verdadeiras bandejas para aqueles que, diante da facilidade da ocasião proporcionada, investem com extrema facilidade contra os indefesos que lhes são cada vez mais entregues. Essa verdadeira tragédia social é fruto de quadro em que qualquer espaço para avanços na humanização do convívio precisa ser mendigado à exaustão (a exemplo do aumento do prazo de licença-maternidade e da diminuição da jornada de trabalho, que beneficiaria mais aos desvalidos), enquanto a frieza de um padrão workaholic de viver é glamourizada, resultando nesse espetáculo de crescente barbaridade a que assistimos insensíveis (pelo menos até que atinja alguém do nosso círculo). (*) É procurador federal em Alagoas.