Opinião
Chico, Medeia e Cuba
Compositor de páginas antológicas da musicologia brasileira, Chico Buarque nos veio à mente esta semana. Coautor da peça Gota d?Água, dentre tantas, tive a oportunidade de assistir sua primeira versão na década de 70 do findo século. Tendo como protagonista a sempre impecável Bibi Ferreira, o enredo é uma adaptação ?acariocada? da tragédia Medeia de Eurípedes. Bibi vive Medeia, no caso, Joana. Medeia é uma figura mitológica cujos especiais dons de feitiçaria provaram ser fundamentais para as ambições de Jason, o mancebo por quem se apaixonara. Com efeito, lutando contra todos, a heroína não hesitaria em sacrificar o próprio irmão para dar cobertura ao amado. Rancorosa compulsiva, Medeia é tomada por incontrolável furor homicida, quando tempo depois, se vê abandonada por Jasão. Em Gota d?Água, Joana, também é descartada pelo companheiro eenvenena os filhos como forma de vingar-se do marido. Numa demonstração de que o ser humano continua absolutamente o mesmo, a tragédia de Medeia/Gota d?Água foi, há alguns dias, entre nós reencarnada. Com um desfecho terrível, uma jovem levou a mágoa do abandono ao mais absurdo paroxismo: planejou a execução dos três filhos. Só um conseguiu escapar à sanha assassina. Chico não é só esse compositor sensível e criativo. Autor de livros premiados, seu passeio pelo mundo da ficção tem rendido muita paparicação e tietagem. Sobram também críticas, o que não deixa de ser natural. Na sua biografia consta lendário fanatismo pelo Fluminense, devoção que o levaria a denegar derrotas, invertendo ou escondendo placares adversos para suas filhas pequenas, expediente que ajudaria a consolidar a paixão das meninas pelo glorioso tricolor. Chico Buarque, como tantos outros fissurados em Cuba e na ditadura de Fidel, é intransigente advogado da ínsula. De tanto ouvir comovidos relatos sobre o paradisíaco regime castrista de prosperidade, liberdade e igualdade, quase acabei convencido de que, pelo menos, o sistema de saúde cubano prestava. Essa convicção estremeceu com a entrevista da cubana Yoáni Sanchez para a revista Veja (Ed. 2133) desta semana. Depois de falar mal de tudo (o problema é o que ler depois de alfabetizado), Sanchez diz horrores da saúde. Segundo ela, quando o sujeito é internado, os familiares precisam levar tudo: roupa de banho, ventilador, balde para banho e limpar privada, até inseticida para as baratas. Nesse aspecto, o páreo é duro com o nosso SUS. (*) É médico e professor da Ufal.