Opinião
Uma crise aparentemente superada
Há um ano, ou pouco mais, a economia mundial foi sacudida por uma inesperada crise financeira que abalou a confiança até então reinante no meio econômico. Empresas, usinas, comércio e entidades produtivas fizeram reajustes para enfrentar esse ?lobo mau? que veio dos países mais poderosos do planeta. Escrevi, nessa época, que mais um efeito perverso far-se-ia sentir: o desemprego. Não deu outra. A demissão no País superou a casa de um milhão. Aqui, em Alagoas, não são conhecidos os números totais, mas sabe-se que atingiram um nível considerável. Desemprego brusco, num Estado já abatido por tantas crises, é perversidade. Feliz a família que não tem alguém desempregado. Recém-formados em diversas profissões não encontram espaço para iniciar suas atividades no mundo real do trabalho. Um fato me comoveu. Numa manhã, eu ainda estava deitado, quando o celular tocou e alguém falou: ?Medeiros acordei você? ? Não, já estava acordado. Mas, o que aconteceu com você, Rodrigo, caiu da cama? ? Pior que isso, meu amigo: recebi ontem aviso prévio da firma em que trabalhei há 25 anos. Ainda estou em pânico e não consegui dormir. Nem reuni coragem para dar a notícia à minha esposa e aos meus três filhos, dois deles estudando em faculdades particulares. Tenho modestas reservas financeiras. Não me preparei para receber este ?cartão vermelho? que tenho certeza, não mereci. Estou desabafando com você, que é meu melhor amigo. Aconselhei-o a ter calma e esfriar a cabeça. ?Após a tempestade vem a bonança?, diz o dito popular. Mas senti sua solidão seu medo e desestímulo. No auge de sua vida, em que sempre buscou a competência e o bom desempenho no trabalho, recebeu esse corte brutal. Para concluir a conversa telefônica, marcamos encontro para discutirmos o fato, mas lhe dei um conselho: ?Lute pela vida, pois, é em vida que se operam todos os milagres?. Sempre acreditei que um país vai bem quando seu povo também vai. Os noticiários dão conta de que a crise está sendo superada e novos empregos estão sendo criados. Para conseguir um emprego com salário bem menor do que recebia, meu amigo Rodrigo lutou vários meses, gastou a sola dos sapatos e distribuiu milhares de currículos, mas venceu. Os filhos já sofriam as consequências. Vale lembrar a expressão do escritor Humberto de Campos: ?A dor que mais dói num pai é aquela que vem através da carne dos filhos?. A classe média tem sido uma das mais atingidas por esse vendaval econômico. (*) É médico e ex-secretário de Educação e de Saúde.