Opinião
Burocracia & crime
Ousado ao extremo, o assalto ao arsenal do quartel do 8º Batalhão da Polícia Militar de Pernambuco, deixa clara a situação da insegurança pública no Brasil e, particularmente, no Sertão nordestino. Perpetrado no município pernambucano de Salgueiro, o ato criminoso reveste-se de atrevida estratégia logística, pois as rotas de fuga apontam para, além de Pernambuco, os Estados de Alagoas, Bahia e Piauí. E, no encalço dos meliantes, as diversas polícias estaduais defrontam-se com obstáculos burocráticos típicos de quase um século atrás, quando dos tempos do cangaço. Nos tempos onde o cangaço afligia o Sertão nordestino, uma das maiores dificuldades das polícias era a burocracia estadual, que, multiplicada por quantos Estados estivessem envolvidos nas operações, findavam em se embaralhar numa teia de incompetências e conflitos de autoridade que no final só beneficiavam os bandidos. Essa mesma teia de incompetências e conflitos de autoridade parece estar estendida sobre os tempos atuais, pelo que se deduz a partir das informações recolhidas sobre as démarches sobre o saque ao arsenal do 8º Batalhão da Polícia Militar de Pernambuco. Em contraposição às facilidades da tecnologia contemporânea, os rádios das polícias de Pernambuco e Alagoas quedam-se incomunicáveis, por utilizarem frequências distintas (!). Quem sabe, os telefones (celulares e fixos) estivessem bloqueados para ligações interestaduais (só como suposição: já imaginaram os policiais, depois de comprarem fiado cartões telefônicos, ficarem a cata de orelhões pelo Sertão afora?). Enfim, resta torcer para que o problema já esteja resolvido quando este editorial estiver sendo lido. Em sendo assim, menos pior. Mas, pelo sim, pelo não, é hora das polícias estaduais terem condições de se articularem, de verdade, no combate ao crime organizado.