Opinião
M�dicos e professores
Pequeno burguês de estreitos horizontes, criei-me em Bebedouro, durante tempo ligado ao Centro por esburacada via de barro batido, que no inverno transformava prosaicos buraquinhos em traiçoeiras bacias. Velhos ônibus e surradas lotações não raras vezes engasgavam-se e ?morriam?, dificultando ainda mais o tumultuado trânsito. Em aventurosas travessias, lembro de uma dessas armadilhas, justamente em frente ao campo do Mutange, do glorioso CSA. Em alguns invernos, o bom senso recomendava ficar em casa aperreando a mãe. Meu pai, médico e professor, não arredava pé de suas obrigações. Com chuva ou com sol, lá se ia ele no ônibus do Seu Arroela cumprir o dever na saúde pública ou dar aulas de química no Colégio Guido. Havia a opção do bonde, que também costumava negar fogo nessas ocasiões. Com a lentidão da época, Lucena Maranhão, depois Abelardo Pontes Lima fizeram o calçamento e o bairro homenageou o primeiro denominando uma das praças. Presidiários, sob o olhar de desatentos policiais, foram mão-de-obra básica. Chuvas fortes já não seriam argumentos para a ociosidade consentida. Das reminiscências aos tempos atuais busco traçar um paralelo entre a vida do médico e do professor de ontem e de hoje. Muita coisa mudou, a começar pelo significado de sucesso profissional. Quase de súbito, desvaneceu-se o conceito de austeridade e a sociedade descambou ? numa imitação ao modelo americano ? para o ?aparentismo? desbragado. Com efeito, médico nenhum cogita morar na periferia. Ter onze filhos e andar de coletivo, nem pensar. Professores que mantinham outra ?profissão principal? ensinavam em colégios particulares por devoção ou para completar o orçamento. Com iguais ganhos simbólicos, estudantes universitários também participavam desse labor (ainda hoje é prática frequente) levados pelos mesmos motivos: amor à arte e necessidade. Ainda que professores do histórico Liceu Alagoano, consta terem sido os únicos razoavelmente remunerados, a maioria daqueles da rede pública sempre receberam salários de sobrevivência. Sem contar com a inaceitável onda de hostilidade dos alunos, aqui, ali e acolá, cretinos gestores públicos ? querendo justificar a humilhação ? tentam nos convencer de que a pecúnia é secundária, posto que temos uma missão nesse vale de lágrimas, que somos apóstolos tocados pelo divino, autênticos mensageiros de Deus, que nos reservou um lugar especial no seu sagrado coração. Enrolação pura. (*) É médico e professor da Ufal.