Opinião
O trabalho m�dico
Morena bonita, 32 anos, bem casada, apenas um filho, profissão cabeleireira. A vida estava indo bem com a abertura de seu pequeno salão. Repentinamente deu uma virada de 360º. Foi diagnosticada com câncer de mama nesta faixa etária onde até a alguns anos atrás pouquíssimas eram as acometidas. Fechou o salão para se submeter à cirurgia. Suas desventuras pessoais estavam apenas começando. Após vinte dias da cirurgia, seu marido foi barbaramente assassinado, somando mais uma vítima entre tantas que tornam Maceió uma das cidades mais inseguras do País. Sobrou-lhe o filho de cinco anos, consolo que não deixava de ser também uma grande responsabilidade para cuidar sozinha. Seu infortúnio, todavia continuaria: detentora de um plano de saúde pago com imenso sacrifício, foi justamente neste momento crítico que o plano recusou-lhe a cobertura. Esta jovem paciente superou tudo e terminou recentemente o seu tratamento na Santa Casa de Misericórdia de Maceió, onde novos, incontáveis e piores dramas afluem diariamente, a maioria deles acometendo pessoas muito humildes que dependem unicamente do SUS, ocasionalmente do apoio da família e sempre dos médicos. Nos meus 34 anos de exercício da oncologia tenho acompanhado uma repetição interminável de situações parecidas, quando as pessoas se defrontam com uma ameaça real às suas vidas. Por mais forte, ninguém é totalmente inexpugnável. A insegurança e o medo inevitavelmente predominam. O médico nestas horas precisa conscientizar o enfermo de que existe um inimigo, a doença, que necessita ser vencido; Elqueliubi, em ?Autores Árabes?, cita que um médico vai ver um doente e lhe diz: ?Estamos aqui três presentes: você, eu e a doença. Se você quiser ajudar-me e aceitar minhas indicações, seremos dois contra a doença, que ficará sozinha e poderá ser vencida por nós?. Trabalho com máquinas e equipamentos de alta tecnologia e última geração e é preciso estar sempre muito atualizado; mas nada substitui o conforto e a confiança que um médico amigo e solidário pode dar ao paciente. Humildemente, é indispensável pensar que nós poderíamos estar ? naquele momento ? no outro lado da mesa do consultório. A Medicina exige intensa dedicação e compromisso, Pedro Nava em ?Baú de Ossos? exclamava: ?Medicina é antes de tudo conhecimento humano. E este está tanto nos livros de patologia e clínica como nos da obra de Proust, Flaubert, Balzac, Rabelais, poetas de hoje, de ontem, nos modernos como nos antigos?. Que os colegas tenham o seu insubstituível trabalho reconhecido é o nosso maior desejo. (*) É médico e professor da Uncisal.