Opinião
Discuss�o bizantina
Chego esbaforido e mergulho no auditório. Meus olhos reclamam da penumbra e solicitam um lapso de tempo para me devolverem a visão. No palco, sete debatedores, ouvidos por centenas de pessoas, esgrimiam seus argumentos, digladiavam os prós e contras da conveniência de sermos ungidos com a implantação de uma das usinas nucleares que serão implantadas no tórrido chão nordestino. Um empreendimento gigantesco. As imagens na tela se revezavam freneticamente entre números, quadros, fotografias, tabelas explicativas, etc. A certa altura percebo que o debate escorrega, e, enfadonhamente, se concentra no assunto segurança das usinas nucleares. Acredito, amicíssimo leitor, que o perigo de uma delas dar um enguiço qualquer, um desarranjo insolúvel, e nos engolfar em uma bola de fogo radioativa, nos transformando em uma Sodoma nordestina, exterminando os alagoanos e carregando pelos ares o que resta das riquezas ambientais das Alagoas é equivalente ao de uma represa de hidrelétrica romper-se sob o peso das águas e arrastar, de roldão, tudo o que estiver à jusante. De súbito, um dos palestrantes, filosoficamente, argumenta: ?Viver é perigoso?. Também concordo e acrescento: viver, andar e voar. Confesso ao leitor amigo que quase estatelava minha cara no piso traiçoeiro da entrada do prédio. Aviões caem em quedas espetaculares e nem por este motivo deixamos de entregar nossos corpos aos perigos dessas geringonças. Viver, realmente, é uma temeridade. Se juízo tivéssemos, jamais abandonaríamos o útero aconchegante de nossas mães. Estou divagando. Retornemos ao que importa: acredito ser mais relevante e útil discutirmos o que será feito com a energia que as usinas irão produzir. Deixo no ar: a energia é para quê e para quem? Estar situado nas proximidades de usinas geradoras de energia de origem hidrelétrica, térmica, ou seja lá o que for, não significa desenvolvimento ou progresso. Temos, bem pertinho de nós, lá no Sertão alagoano, as maiores centrais de produção de energia (hidrelétricas de Paulo Afonso 1; 2; 3; 4 e Xingó) e não sei se tal fato traduziu-se em riqueza e progresso para o alagoano. Estamos, hoje, mendigando um reles alimentador ? quase uma gambiarra ? se comparado aos grandes projetos de transmissão de energia em outros rincões do País, para abastecer de energia o empreendimento de extração de minérios na região de Craíbas, no Agreste alagoano, vendo passar por cima das nossas cabeças as grandes linhas de transmissão de energia ligando o complexo energético de Paulo Afonso aos polos de desenvolvimento implantados em Pernambuco, Ceará e Bahia, enquanto o sertanejo alagoano, em sua casa de taipa, agarrando-se a uma lamparina que bruxuleia uma chama quase morta, tenta lançar um pouco de luz em um futuro cada vez mais sombrio. (*) É engenheiro da Casal.