Opinião
Homens, livros e gl�ria
Curiosos os pontos de vista de antigos companheiros socialistas, hoje palmilhando em linhas opostas. De um lado, figuras como o senador Cristovam Buarque e a vereadora Heloísa Helena (ele, com sua voz em falsete, elegante e sóbrio, ela, a chamar os adversários de ?canalhas? e outras adjetivações menos ortodoxas) exercendo o direito de criticar o que julgam desviado. Na outra fronteira, insuspeitos socialistas, áulicos do regime, acreditando piamente num futuro esplendoroso para o País ? desde que se o mantenha com os atuais manipuladores. Mas deixemos as mágoas para rancorosos, porque o momento é de glória na terra de Santa Cruz. Dispensável falar sobre o petróleo do pré-sal, espécie de minas do Rei Salomão, tesouro oculto nas profundezas dos mares e descoberto graças ao faro, à argúcia do presidente Lula e de sua dileta pupila Dilma Rousseff. Grande povo brasileiro que daqui a alguns anos terá a honra de hospedar as Olimpíadas, sonho de consumo de muitos ? graças a Lula e Rousseff ?, realidade palpável para os ungidos por Deus. Pouco importa se Jesus, na visão do chefe, faria alianças com Judas ou com Satanás (o importante é ganhar as eleições). Também é detalhe menor os rios de dinheiro que estarão sob a manigância da mesma turma que, segundo dizem, encheu as burras nos jogos Panamericanos. Cidade Maravilhosa, cheia de encantos mil, como proclama a canção de André Filho, o Rio de Janeiro voltou a brilhar no noticiário do mundo inteiro. É que estrategistas dos morros cariocas resolveram conquistar novos territórios, anexando terras contíguas para ampliar poderes. São novas versões de antigos conquistadores. São redivivos Alexandre e César. Se não há Gálias para conquistar, conquiste-se o morro vizinho. O nacionalista Monteiro Lobato dizia que um país se faz com homens e livros. De olho nessa definitiva observação, mais uma vez o Rio de Janeiro sai na frente e inscreve dezenas de mestres e doutores para um concurso público de gari. De gari. É claro que todos já ouviram falar em advogados, engenheiros e economistas trabalhando em bancos, nos Correios, na Petrobras e em algumas outras empresas de semelhante quilate. Agora, doutores e mestres disputando vaga para gari, é de fato uma coisa extraordinária, orgulho para todos nós. Para os que não acreditavam, é a resposta às ações do governo na área da educação. Orgástica glória da vitoriosa política de criação de novos postos de trabalho. (*) É médico e professor da Ufal.