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O discurso encantat�rio do neoliberalismo

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Compreender o poema de Homero (A Odisseia), ou melhor, o canto sedutor das sereias a partir da epistemologia da modernidade que segue contemporaneamente cooptado pelo discurso encantatório do neoliberalismo é poder constatar que essa perspectiva defendida pelos arautos da ciência moderna delimita estrategicamente o uso da razão para dominar o mundo físico e subjetivo, erotizando as relações não-libidinais e transformando o sacrifício em puro prazer na consolidação dos dispositivos normativos da racionalização técnica, ou seja, sublimando a satisfação do desejo para garantir o processo civilizatório. Uma parcela significativa da população apenas participava de uma forma bastante incômoda e tortuosa, como mão-de-obra ou como excluídos, que é, sem dúvida, uma das principais características desse processo civilizatório ? a compensação das minorias como forma incompatível de agregar capital e trabalho ? princípio comum das superpotências mundiais em relação aos precarizados globais. Diante desse fenômeno coloca-se a possibilidade de um mundo melhor para todos mesmo que uma pequena parte da sociedade tenha acesso às benesses dessa tão sonhada promessa de felicidade consumista que na maioria das vezes significa a compra de um automóvel, de um aparelho celular ou mesmo na troca da geladeira, do fogão. Assim, consumo, logo existo ou inexisto? No entanto segue coerentemente a astúcia da modernidade em reduzir ao máximo, ou melhor, privatizar a nossa subjetividade. Nesse cenário cartesiano do consumo encontramos um viés ainda mais sofisticado de negação da subjetividade do sujeito moderno. O neoliberalismo como prática de poder afirma que o Estado precisa ser reduzido ao máximo e que a globalização gerou um enorme crescimento econômico e social a nível universal. Mas, em contrapartida tal discurso esquece de esclarecer que a globalização significa a intensificação discursiva das atividades e princípios neoliberais pelos países centrais. A vitória do projeto civilizatório sobre outras formas de sociabilidade ganhou mais forças a partir do discurso encantatório do neoliberalismo. A linguagem e as representações passaram a ter importância secundária em um mundo estetizado pela mercadoria, pelo fim da história e das classes sociais, mesmo quando encontramos uma infundada defesa de uma sociedade da vantagem, da competição, da eficácia, do valor de troca, através de formas tecnológicas totalitárias a serviço da fragmentação da subjetividade. Porém, nos resta lutar pela transformação dos indivíduos em sujeitos históricos. Citemos Olgária Matos (1996), o advento supremo da liberdade não pode redimir aqueles que morrem na dor. É a recordação deles e a culpa acumulada da humanidade contra as suas vitimas que obscurecem as perspectivas de uma civilização sem repressão. (*) É mestre pela UFPE e professor do Cesmac.

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