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Cotidiano

A dignidade do ócio

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“Quanto mais materialista é uma cidade, mais veloz o tempo escapa; em Milão, mais que em Roma; em São Paulo, mais que no Rio.”

Domenico de Masi, Uma Simples Revolução, Sextante, Rio, 2019.

Continuo a leitura de A Utilidade do Ócio, de Domenico de Masi. Até o início do século XIX, a atividade intelectual era considerada privilégio dos aristocratas. Em A Vida Cotidiana dos Gregos na Era de Péricles, está dito que os feriados eram pouco menos numerosos do que os dias úteis.

Comemoravam-se seguidamente as Saturnálias, as homenagens a Apolo, os ritos da semeadura, as festas de Dionísio, os ritos de Atenas e outras festividades. As celebrações incluíam competições esportivas e ginásticas, concursos musicais e disputas de arte dramática.

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No Império Romano, a partir do século II a.C., os romanos saíam de casa pela manhã e iam às termas. Ali cuidavam do corpo, divertiam-se e estudavam até o pôr do sol. As termas representaram, durante cinco séculos, um modo de vida.

Talvez a vida social na Florença dos Médici e na Viena de Freud não fosse muito diferente da vivida por gregos e romanos. O escritor austríaco Robert Musil, o pintor Gustav Klimt e o compositor Gustav Mahler trabalhavam doze horas por dia em cafeterias, tomando café, comendo croissants e participando de conversas interdisciplinares.

Com a era industrial, o ócio foi desclassificado, jogado para a série C. Os trabalhadores passaram a descansar apenas o suficiente para se recuperarem do esgotamento físico. Segundo o filósofo inglês Bertrand Russell, “a ideia de que o pobre possa praticar o ócio aborrece os ricos”. Mas, agora, na pós-modernidade industrial, a longevidade e a tecnologia ampliam o tempo livre. Chegou a hora de restaurar a dignidade do ócio?

O ócio é uma arte, diz Domenico de Masi, que, graças aos recursos médicos e tecnológicos, pode recuperar seu antigo prestígio. Lembre-se de que foi justamente a classe ociosa que cultivou a arte, desenvolveu a ciência, expandiu as escolas de pintura e ampliou a experiência literária. Há, porém, um aspecto importante: o ócio só amadurece quando está plenamente conectado à criatividade.

Quer dizer, o ócio é o espaço em que a natureza intelectual desenvolve a imaginação, frutificando na criação de novos bens e serviços que facilitam o cotidiano pós-industrial e embelezam a vida contemporânea.

Atualmente, as empresas não contratam mais operadores que repetem, semestre após semestre, as mesmas atividades. Contratam pessoas com capacidade de inovar, inventar e criar. Eu repetia a meus alunos:

— O que é o empregado de 1 milhão de dólares, professor?

E respondia:

— É o funcionário que apresenta uma ideia capaz de agregar 1 milhão de dólares ao faturamento da empresa.

Com o direito ao trabalho, a sociedade criou o homem econômico. Com o direito ao ócio, criou o homem criativo. Entre a obra de arte e seu criador existe um vínculo mais sutil e mais resistente do que aquele que liga o trabalhador à produção em série.

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