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Crise

Copa do Mundo e nós

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Norbert Elias, sociólogo alemão, abordou o esporte como objeto das ciências sociais em seu livro Quest for Excitement (Busca por Excitação), escrito em coautoria com Eric Dunning, nos anos 1960. De maneira resumida, Elias entende o esporte e o lazer como formas de prazer e excitação coletiva que canalizam a violência dentro de um processo civilizatório, no qual práticas sociais resolvem conflitos e dilemas da sociedade.

Em um resumão da aula de sociologia da cultura, pode-se dizer que os esportes em geral, e o futebol em particular, podem ser entendidos como práticas corporais que civilizam a guerra e a violência por meio de uma competição simbólica. Os simbolismos são abundantes em um jogo de futebol.

Alguns deles são óbvios. A França, até as oitavas de final, era a equipe que praticava o futebol mais exuberante e, além de seus 26 convocados, contava com outros 73 jogadores, totalizando 99 atletas distribuídos por várias seleções — inclusive a do Marrocos, seu adversário nas quartas de final — que nasceram em território francês. Nada há de estranho nisso, pois os franceses mantêm um programa pragmático de inclusão social por meio do esporte, voltado para imigrantes e seus descendentes, o que faz da França uma nação altamente competitiva também em modalidades como basquete, voleibol, atletismo e judô, entre outras.

Ao contrário da seleção brasileira, que, com raras exceções, primou pela passividade e pela ausência de criatividade, é impossível assistir a um jogo da Argentina sem tirar o chapéu para a equipe de Messi, o melhor jogador do mundo no século XXI, que, além de apresentar, mesmo aos 39 anos, um comportamento competitivo exemplar e limpo em campo, sempre prioriza os interesses da equipe acima de tudo. A Argentina enviou cinco técnicos para a Copa (Argentina, Colômbia, Estados Unidos, Equador e Paraguai).

O Brasil terminará, no máximo, em décimo lugar, abaixo da nona posição de 1990 e apenas um posto acima do 11.º lugar obtido no Mundial da Inglaterra, há 60 anos. Impressiona que isso aconteça justamente na primeira Copa disputada pela seleção com um técnico estrangeiro, desejo explícito de grande parte dos analistas do país. Ao final, ficou a convicção de que Carlo Ancelotti não realizou um bom trabalho. O Brasil acaba de perder a sexta Copa consecutiva, enquanto se conhece a permanente disputa por poder e dinheiro na CBF e nas ligas, em prejuízo do desenvolvimento do nosso futebol.

O encerramento da era Neymar não deixa saudades. Talento nunca lhe faltou: marcou 70 gols pela seleção, superando o recorde de Pelé. No entanto, tratou esse dom com desleixo e, fora de campo, acumulou episódios de sonegação fiscal, multa ambiental, baladas, escândalos e traições. O craque da balada, da festa e da bebida. O malandro que parte da crônica esportiva romantizou já não tem lugar no mundo altamente competitivo do esporte atual.

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