Opinião
Um exemplo de exerc�cio profissional
Em meados da década de 1950, o jornalista Carvalho Veras deparou-se ? em sua mesa ? com a crônica ?Retratos de uma comuna?. Tratava-se de uma colaboração remetida por um jovem interiorano de apenas 14 anos. Para júbilo do cronista-mirim, o texto foi publicado ? com algumas correções ? no caderno literário do matutino do Jornal de Alagoas. Valmir Calheiros acabava de debutar no jornalismo. Nascido em Atalaia, Zona da Mata alagoana, em 23 de março de 1944, Valmir Calheiros de Siqueira, após transladar-se para capital, tornou-se revisor do também extinto Jornal Hoje ? periódico bebedourense fundado em 1961 por Jorge Assumpção ? e integrou a diretoria eleita da União dos Estudantes Secundaristas de Alagoas (Uesa). Ainda no campo do movimento estudantil, compôs a diretoria da Casa do Estudante Secundário, espaço onde, aliás, habitou enquanto cursou o ginasial. Na Casa do Estudante, entidade vinculada à Uesa, Valmir conheceria Zito Cabral e os irmãos Paulo e Tobias Granja, que também viriam a exercer o jornalismo. Certa feita, por volta de 1962, a chegada de um motorista à república dos secundaristas surpreendeu os estudantes. Vinha da parte da Gazeta de Alagoas e trazia consigo um recado de seu proprietário, Arnon de Mello. Tratava-se de um convite para ingressar no jornal, então em franca ascensão, cuja redação era comandada por Rodrigues de Gouveia. O chamamento foi aceito e rendeu uma parceria de décadas. Na Gazeta de Alagoas, o ?foca? (como é denominado o aprendiz de jornalista) ocupou diferentes postos ? foi repórter, repórter setorista e chefe de reportagem ? e trabalhou com diferentes editores como Zadir Cassela, José Alves de Oliveira, Antônio Sapucaia ? hoje, desembargador aposentado e diretor-presidente do Detran ? e Edvaldo Faria de Menezes, até ocupar, ele próprio, a chefia da redação, na primeira metade da década de 1970. Atualmente, Valmir Calheiros é considerado especialista na história institucional da Organização Arnon de Mello, e vem trabalhando com afinco na confecção de um livro sobre a história da Gazeta de Alagoas, obra que preencherá lacunas na parca bibliografia historiográfica sobre a imprensa em Alagoas. No último dia 23 de setembro, passados mais de 40 anos de sua estreia, pelas mãos do mestre Carvalho Veras, o repórter atalaiense recebeu o título de cidadão honorário, concedido pela Câmara de Vereadores de Maceió. Valmir Calheiros, por toda a sua vida, discorreu sobre fatos e personagens da história contemporânea de Alagoas. Ironicamente, por outro lado, poucos são os alagoanos ? externos ao campo da Comunicação Social ? que conhecem, ao menos, episódios de sua biografia. Talvez seja esta a sina do jornalista, ofício representado por Valmir: escrever a história do presente ao passo em que mantém discreta a sua própria trajetória. (*) É mestrando do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal de Pernambuco e pesquisador do Grupo de Pesquisa COMULTI UFAL/COS/ CNPq.