Opinião
Dia de Todos os Santos, dos mortos, de todos os vivos
Espero estar no grupo dos assinalados porque vivo, ainda me encontro, esperando o partir para a outra vida. Sei que vou partir, que vou fechar os olhos para este mundo. Sei que vou morrer. A morte é esperança para mim. Quero ver o que espero não mais como num espelho, senão face a face. Desejo que minha vida faça em Deus a experiência do que deve ser em plenitude. Quero a posse tranquila do que está sendo para mim, agora, objeto fim da minha peregrinação na terra. Quero, logo mais, a posse serena daquilo que, ansiosamente, procurei na fé. Para mim, de nada valem as sirenes do nada: ? de Sartre ou de Camus. A ânsia de viver me traz felicidade: sinto distante, mas fiel a voz da vida, como quem, no búzio vazio, ouve o canto-chão solene do mar. O céu que minha fé assinala, o meu céu teológico não possui geografia, nem se encontra no périplo dos cosmonautas. O céu de felicidade porque espera meu ser não é prolongamento do tão decantado céu astronômico. Meu céu é posse de todos os santos; é maravilha e descoberta de todos os mortos; é mergulho interminável na riqueza do mistério para os que ainda vivem nos braços do tempo. Espero que meu desejo torne-se harpa de amor, quando, após minha partida, eu possuir ? serenamente ? o que desejei na vida, o que plantei na semente da fé e no alicerce consolador da esperança. No final de contas, a morte é o verde do meu céu. Ainda que me arraste ? pobre verme ?; ainda que me quebre ? pobre barro ?; ainda que eu naufrague ? pobre nauta: eu Te verei ? eterno Amor, face a face: um dia, eternamente dia ? eu Te verei; sim, naquele dia, sem noite, sem sombra, nem nuvens. Sim, eu Te verei, na eternidade sem tempo. Fica bem para este dia o que diz a Escritura: ?Bem-aventurados os pobres de espírito, que dizer, os desapegados das coisas do mundo, porque deles é o Reino dos Céus?. Isto é, daquele céu que não pertence à geografia dos homens, mas, o esplendor de Deus. Trata-se de um estado de espírito em que sentimos a felicidade do paraíso. E se alguém me perguntasse: como está você? E eu responderia: estou num paraíso. (*) É bispo emérito de Palmeira dos Índios e presidente da Academia Alagoana de Letras.