Opinião
Questionamentos profissionais e de vida
Durante a Semana do Médico, em outubro, recebi um texto literário enviado por uma colega médica de São Paulo. Gostaria de tê-lo lido durante a Noite Cultural, patrocinada pelo Conselho Regional de Medicina e coordenada pela Academia Alagoana de Medicina e Sociedade Brasileira de Médicos Escritores. Não foi possível por falta de tempo. Resolvi, com a autorização da autora, condensá-lo, transformando-o numa crônica, dada a importância das reflexões que contêm. Diz o texto: ?Que médica sou eu? Que amenizo tantos sofrimentos, mas não consigo sanar minhas próprias dores. Que curo tantos estranhos, mas vejo a vida esvanecer justamente nas pessoas que mais amo. Que oriento mais com palavras do que com exemplos. Que prescrevo para o corpo quando a alma é que está doente. Que médica sou eu? Outrora, submissa ao mercantilismo dos ideais, sufocada por uma estrutura que eu mesma ajudei a construir e sempre indignada pelas discrepantes remunerações. As horas voluntariadas me aprazem. Por intermédio delas, comprovo o poder terapêutico da confraternização, das amizades e do amor. Os escritos me acompanham cada vez com mais frequência. Neles eu revelo o que, de outra forma, se esconderia. Em raras ocasiões, eu vislumbro um talento e comemoro, eufórica, uma frase inspirada. Em outras tantas, entraves me perturbam. É quando tento escrever com a mente o que somente pode ser dito com o coração. Afinal, que médica sou eu? Entristeço-me com os prognósticos desfavoráveis. Enterneço-me com as lembrancinhas de agradecimento e com os sorrisos singelos daqueles que pouco têm. Curvo-me diante da responsabilidade de um ofício em que um pequeno erro pode ser fatal. Cada vez que imagino já saber boa parte das respostas, a vida retorna com outros questionamentos. Vibro com os novos milagres da ciência, mas há muito tempo me convenci de que nada é impossível. A vida é um mistério, a saúde é dinâmica e, embora a experiência seja minha aliada, os pacientes teimam em me surpreender. No momento, eu apenas sei que, humildemente, faço o melhor que posso. Talvez o destino, num lampejo de ironia, tenha concedido o meu desejo. E, como tudo tem o seu tempo, ainda hei de perceber que eu fui uma criança que um dia amou Deus e, tantos anos depois, continuo a acreditar nos destinos sobrenaturais do ser humano?. O que posso dizer sobre o texto dessa médica escritora: trata-se de página inspirada e emotiva capaz de penetrar nas fímbrias da sensibilidade. (*) É médico.