Consciência
Os dez por cento que podem mudar cem por cento da vida
“Liberte sua mente da influência alheia.” — Goethe.
Naquele dia, um jovem entrou no consultório carregando um cansaço que nenhum exame poderia revelar.
— Todos me julgam. Nunca sou suficiente.
O terapeuta não respondeu. Algumas feridas precisam encontrar primeiro um silêncio que não as violente.
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Depois perguntou, com delicadeza:
— Quanto desse sofrimento realmente pertence aos outros?
O rapaz pensou longamente.
— Quase tudo. Noventa por cento.
O terapeuta sorriu como quem avista uma nascente escondida.
— Então sua vida acaba de encontrar os dez por cento capazes de transformar os outros noventa.
Levantou-se e apontou para um velho jardineiro que continuava trabalhando enquanto o vento sacudia as árvores.
— Repare. Ele nunca negocia com a tempestade. Nenhuma árvore floresce convencendo o céu a ser mais gentil. Ela apenas aprofunda suas raízes. E, quanto mais profundas elas se tornam, menos o vento decide seu destino. Um dia, aquilo que parecia ameaça transforma-se em música nas folhas.
Naquele instante, o jovem percebeu a armadilha invisível: ao entregar aos outros toda a responsabilidade por sua dor, entregava-lhes também a autoria da própria existência.
Saiu sem que o mundo mudasse um milímetro.
As críticas permaneceram.
As injustiças continuaram.
As pessoas eram as mesmas.
Mas já não possuíam a chave da única casa onde a liberdade pode morar.
A inspiração para a história acima encontrei numa viagem rumo ao conhecimento, usando como meio de transporte fantásticos livros que unem terapia e filosofia.
Eles me levaram a Palo Alto, na Califórnia, Estados Unidos, onde fui recebido pelo renomado psiquiatra Dr. Irvin Yalom, a quem logo pedi:
— Ensine-me algo que eu ainda não saiba e que possa mudar minha vida para melhor.
— Há dores cuja origem pertence inteiramente ao outro. Ainda assim, a reconstrução da vida começa quando recuperamos aquilo que ninguém pode viver por nós.
Talvez esse seja o nome secreto da maturidade.
Aceitar que nunca escolheremos todos os ventos.
Mas sempre escolheremos a profundidade das raízes.
Porque quem finalmente aprende a habitar a própria consciência descobre a única liberdade que ninguém pode confiscar: deixar de viver do lado de fora de si.