Opinião
Ai que d�...
DOM EDVALDO G. AMARAL * O Povo de Deus cantava naquela noite de despedida, cheia de nostalgia, após a missa de ação de graças na Quadra do Colégio Marista: ?Ai, ai que saudade, ai que dó, viver longe de Maceió!? Pois é, queridos amigos, estou vivendo longe de Maceió, na minha cidade natal, o Recife, com meus irmãos salesianos, na casa onde entrei em 1939, vivi alguns anos (ininterruptamente menos do que em Maceió), fui aluno do curso ginasial, professor e diretor e deixei há trinta anos, quando fui transferido para diretor do Colégio Salesiano de Natal, onde fui sagrado bispo, para ser auxiliar de dom Luciano Duarte, em Aracaju. Terminei minha missão de bispo em Maceió, embora continue protegendo e amparando o trabalho pelos meninos de rua da Casa Dom Bosco, aí nesta querida cidade. O Código de Direito Canônico, em seu cânon 401 § 1o, solicita aos bispos diocesanos, quando completarem setenta e cinco anos de idade, que apresentem a renúncia do ofício episcopal ao sumo pontífice, ?que, ponderando todas as circunstâncias, tomará providências?, diz o Código. Hoje se chama de Emérito o bispo que termina seu serviço pastoral numa determinada diocese. Antigamente, quando não havia idade compulsória, mas ficava ao arbítrio de cada bispo encerrar sua atividade como pastor daquela diocese, o bispo que renunciava chamava-se resignatário e assumia o título de uma diocese meramente titular, sem jurisdição sobre ela. Hoje, ele fica para sempre com o título de Emérito daquela diocese, onde exerceu seu múnus episcopal. A renúncia é um conceito bíblico, empregado por Jesus em mais de uma oportunidade. Em Mateus, cap. 16, versículo 24, ele diz: ?Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome sua cruz e siga-me?. E, no Evangelho de São Lucas, o Cristo declara: ?Qualquer um de vós se não renunciar a tudo o que tem, não pode ser meu discípulo (Cap. 14, 33). A vida cristã é, assim, vida de renúncia. Renúncia aos lugares queridos, onde se viveu, sofreu e trabalhou. Renúncia às atividades preferidas, onde se deu tudo de si. Renúncia aos amigos, formados ao longo dos anos, com quem juntos lutamos, sofremos e vencemos. Renúncia para seguir Jesus, renúncia para obedecer aos desejos da Igreja. Renúncia para um melhor serviço ao Reino, como menos de pessoal, com mais despojamento e mais doação. Mas, ainda assim, apesar de todos esses valores espirituais, fica o humano, que diz: ?Ai, ai, que saudade, ai que dó, viver longe de Maceió...? (*) É ARCEBISPO EMÉRITO DE MACEIÓ.