ENSAIO
Com açúcar, com afeto
Ouço e leio opiniões das mais diversas sobre a ligação entre criador e criatura ou, de outra forma, a relação entre o autor e sua obra. Geralmente lembro de Dona Iraci — my mother —, que costumava dizer que herói é aquele que não teve tempo de correr, e recomendava evitar dar pitacos sobre assuntos de origem vaga: “soube”, “disseram”, “ouvi dizer”, “me contaram”...
Dizia, também, que não se discutem casamento alheio, futebol e religião; quando muito, emite-se uma opinião descompromissada. Falava com a propriedade adquirida na universidade da vida, aquela em que muitos entram e pouquíssimos conseguem receber o diploma de bacharel.
A propósito, escutei, outro dia, comentários sobre o cidadão e o músico Chico Buarque. Admiro o artista e o músico; quanto ao cidadão, optei por cumprir fielmente as recomendações de Dona Iraci. Chico Buarque é um dos maiores compositores da música popular brasileira. A letra e a melodia da música que dá título a este texto são sublimes e devem ter sido feitas com uma combinação de alma, cérebro, coração e uma generosa calda de leite condensado. Outra composição, “Construção”, é uma das letras mais bem elaboradas da MPB desde o tempo em que o Brasil era tricampeão mundial de futebol.
Bem longe das terras do pau-brasil, foi produzido o documentário “Imagine”, de 1988, que mostra um fã de John Lennon invadindo sua propriedade. Queria conversar com o autor das músicas que mexeram com sua cabeça. O próprio Lennon aconselhou o invasor, dizendo: “Não confunda as músicas com a minha vida”, lembrando-lhe de que era apenas um homem comum fazendo música. Tempos depois, outro admirador, igualmente confuso, tirou a vida do músico inglês com um disparo.
Vídeo mostra tentativa de assalto na Gruta de Lourdes; dupla é presa em Maceió
Caminhão perde os freios, atinge veículos e deixa quatro feridos na Cambona #capcut
Jovem de 20 anos é preso com réplica de fuzil e drogas em Alagoas
Interdição na Ladeira da Moenda em Maceió
Corpo é encontrado na Mata do Rolo após denúncia anônima
Sou grande admirador do poeta anglo-americano T. S. Eliot, mas confesso que não tenho capacidade para discorrer sobre sua obra e, principalmente, sobre os efeitos de sua vida privada — casamento desfeito, mudança de domicílio e de religião etc. — em seus trabalhos. Deixou uma obra extensa, intensa, de excepcional qualidade e conteúdo extraordinário, capaz de agradar aos mais diversos leitores.
Como aperitivo, trago aqui um trecho de “Burnt Norton”, de Quatro Quartetos:
“Aqui é um lugar de desamor
Tempo de antes e tempo de após
Numa luz mortiça: nem a luz do dia
Que reveste formas de lúcida quietude
Transfigurando sombras em beleza transitória...”
O poema foi publicado em 1936, antes da Segunda Guerra Mundial, quando pessoas dotadas de grande sensibilidade — grupo no qual incluo o poeta — já podiam prever o que viria pela frente com a ascensão de Hitler ao cargo de chanceler da Alemanha, em 1933. O ano de 1936, vivido por T. S. Eliot, guarda algumas semelhanças com o ano de 2026 que vivemos. É possível estabelecer comparações, na esperança de que elas não se concretizem.
Que o G.A.D.U. ilumine as mentes daqueles que estão no poder para que restabeleçam a cordialidade e o afeto como princípios, ainda que venham adoçados apenas com adoçante artificial.