Opinião
De repente, a l�grima
Recentemente, um colega médico estava saindo do consultório no fim da tarde na Ponta Verde, quando um marginal de bicicleta aproximou-se e botou um imenso revólver na sua cabeça e gritou: ?É um assalto, passe tudo logo, senão morre!?. O colega passou a carteira e o talão de cheques. O marginal insatisfeito exigiu as duas voltas que ele tinha no pescoço. Ele entregou a maior e mais valiosa, todavia, empacou com a menor e mais fininha, de pouco valor material, mas de grande valor estimativo, presente de sua mãe e era como se fosse a presença dela junto a si, acompanhando-o e protegendo-o por onde quer que fosse. O ladrão botou a mão no seu pescoço para puxar na marra o objeto estimado. Sem refletir, a vítima reagiu e ambos rolaram no chão. O marginal gritou chamando dois outros bandidos que estavam na espreita e estes abriram fogo. Uma bala passou raspando a sua cabeça e ainda arrancou um naco de sua orelha. Em seguida os três marginais fugiram em disparada. Ele preservou a memória da mãe. O colega conta que durante os 10 minutos que duraram o assalto, muitas pessoas passaram pertinho e nem uma delas sinalizou com qualquer tipo de auxílio ou solidariedade, nem para chamar a polícia. Ele se controlou até duas horas depois, quando do seu depoimento à polícia: só então a vítima, pai de três filhos, se conscientizou do que tinha passado e prorrompeu em intenso e convulso choro. Na recente posse do senador Fernando Collor na Academia Alagoana de Letras, durante o seu consistente discurso, o ex-presidente da República, seguiu firme durante a maior parte do tempo, porém a partir de um determinado momento, especialmente quando recordou o dr. Ib Gatto, ocupante anterior da cadeira que passava a ocupar; quando relembrou acontecimentos simples dos tempos de infância na casa da praça Sinimbu e quando se referiu a seus genitores, o senador Collor, um político que enfrentou e atravessou certamente os piores momentos que um homem público pode ter enfrentado no País, sem em nenhum momento fraquejar, foi ali vencido pela emoção: a garganta lhe fechou, a voz lhe fugiu, ao tempo em que as lágrimas superaram as resistências e brotaram dos olhos, tomando-lhe a face. Vivemos momentos na vida nos quais a expressão dos sentimentos mais íntimos torna-se proibitiva, principalmente aqueles mais espontâneos, mais francos e sinceros. Embora muitas vezes não possamos extravasar o que estamos sentindo, passando ou sofrendo, haverá de chegar o momento propício para se expor a verdade de cada um e a realidade se mostrar. (*) É médico e professor da Uncisal.