loading-icon
MIX 98.3
NO AR | MACEIÓ

Mix FM

98.3
quinta-feira, 06/08/2026 | Ano | Nº 6283
Maceió, AL
24° Tempo
Logo Gazeta de Alagoas Logo Gazeta de Alagoas
Home > Opinião

Opinião

Sim�o Bacamarte, o retorno

Ouvir
Compartilhar

Muitos creem piamente que a humanitária alagoana Nise da Silveira teria idealizado revolucionário método de cura da loucura. Segundo dão a entender, se os preceitos da psiquiatra fossem seguidos não haveria tantos loucos nesse mundo. Exageros à parte, certamente ela fez a sua parte. Nise considerava o eletrochoque ? na época, rara alternativa comprovadamente eficaz para reverter estados psicóticos ? muito agressivo. Por tudo, é uma espécie de musa da desospitalização psiquiátrica, movimento que culminaria com a irresponsável desativação de milhares de leitos no Brasil. Centenas entre nós das Alagoas. Antes disso, Machado de Assis satirizaria a complexa ciência psiquiátrica com o conto O Alienista. Na sua genialidade, teria se inspirado numa fuga em massa dos loucos do Hospital Pedro 2º. Pesquisador meticuloso, o personagem Simão Bacamarte, o alienista, era um sagaz observador do pequeno universo da diminuta Itaguaí. Fundador do hospício Casa Verde, Bacamarte viveria seu clímax ao internar praticamente toda a população de Itaguaí. Antes de tudo um cientista honesto, ao constatar falhas nas suas interpretações, não hesitaria em conceder alta curada a todos os internos, decretando a seguir o próprio internamento por alienação. Com a aprovação da ?Lei Delgado? em 2001, autoridades sanitárias travestidas de Simão Bacamarte forçaram a alta de milhares de doentes país afora. Satanizando os ?manicômios?, pretendia-se substituir leitos hospitalares por Centros Psiquiátricos, privilegiando o atendimento ambulatorial. Lembro de uma entrevista de uma psicóloga. Da linha de frente dos detonadores de leitos, dizia ela que visitara hospitais psiquiátricos e só tinha encontrado gays drogados e prostitutas. E, irônica, tripudiava: ?Doido que é bom, ninguém vê?. O fato é que se articulou verdadeiro massacre através de deliberada e perversa política de asfixia financeira dos hospitais remanescentes, através de não reajuste do preço das diárias. O recado é muito claro: ?Vocês não fecham, mas eu mato vocês de fome?. A proximidade das eleições presidenciais está fazendo milagres. Lula confessa preocupação com a escalada do consumo de drogas. Com o Estado à deriva, num raro surto de bom senso admitiu falhas nas políticas para o setor. Talvez por isso, depois de anos sem qualquer reajuste e/ou investimento, acenou-se com majoração nas diárias e permissão para novos leitos. Bacamarte não se sairia melhor. (*) É médico e professor da Ufal.

Relacionadas