Opinião
O muro ruiu em festa
Completar-se-á amanhã 20 anos da substituição de um ícone do século 20. Em duas visões simplistas, porém indeléveis, o Muro de Berlim é uma figura duplamente icônica: sua existência simboliza a opressão, enquanto sua derribada significa o triunfo da liberdade. Essa duplicidade icônica tem a ver com a ascensão e queda do império soviético, período historicamente curto de 72 anos, mas profundamente marcante na história da humanidade. Nada como a derrubada do Muro de Berlim representa tão bem este processo de construção e desabamento do modelo soviético como o espetáculo da derrubada da muralha que tentou isolar a diminuta área identificada como ?Berlim Ocidental?. Nem mesmo a própria implosão da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) teve tamanho impacto no imaginário mundial. Na verdade, o esboroamento festivo do muro berlinense antecipou a notícia do esfacelamento da URSS, de forma que, quando se desagregou o Estado plurinacional centralizado por Moscou, o impacto (apesar de gigantesco) findou sendo menor que o impressionante ribombar de júbilo que varreu o mundo no dia 9 de novembro de 1989. Longa é a análise dos porquês do erro histórico da construção do bombo de pedra em torno de Berlim Ocidental. Mas o tropeço soviético, cometido em 1961, marca um dos momentos de maior tensão da rivalidade que ameaçou o mundo com uma carnificina atômica: a guerra fria. Símbolo do mal e da repressão, o Muro de Berlim foi demolido, literalmente, numa apoteose universal. Ícone da guerra, caiu em paz. Ruiu em festa e prognosticou uma nova época para o mundo. Tempo anunciado e ainda não efetivado (vide a guerra quente que substitui a guerra fria), mas que segue sendo uma grande esperança para o mundo.