SAÚDE
A ameaça silenciosa da hipertensão arterial
No dia a dia do consultório e nas enfermarias do IMIP, deparo-me constantemente com uma cena que se repete: a de um paciente que chega para uma consulta de rotina ou acompanhando um familiar e, ao aferirmos a pressão, o ponteiro marca 160 por 100 mmHg. O susto é imediato. “Mas, doutor, eu não sinto absolutamente nada! Como posso estar com a pressão alta?”
Essa frase resume o maior perigo da hipertensão arterial: ela é uma doença essencialmente silenciosa. No Brasil, quase um em cada três adultos tem hipertensão, e uma parcela expressiva dessas pessoas sequer sabe que convive com a doença. Ela não tem cara, não escolhe gênero e, na grande maioria das vezes, não causa dor de cabeça, tontura ou sangramento nasal em suas fases iniciais, ao contrário do que se pensa.
Os critérios para o que consideramos pressão arterial normal ficaram mais rigorosos ao longo dos anos. A ciência acumulou evidências suficientes para reconhecer que qualquer valor acima de 120 por 80 mmHg já merece atenção. O antigo conforto de dizer “está em 13 por 8, está ótimo” não se sustenta mais. Sabemos, hoje, que mesmo pressões levemente elevadas, mantidas ao longo do tempo, já causam dano progressivo às artérias e ao coração.
Enquanto o paciente segue sua vida normalmente, trabalhando e cuidando da família, o fluxo de sangue sob forte pressão vai agredindo as paredes das artérias — um desgaste contínuo, milímetro por milímetro. Quando os sintomas finalmente aparecem, geralmente já não estamos falando de hipertensão isolada, mas de suas complicações tardias: infarto agudo do miocárdio, acidente vascular cerebral ou insuficiência renal crônica com necessidade de hemodiálise.
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Controlar a hipertensão não é um mistério, mas exige o que chamamos de pacto com a realidade. O tratamento vai muito além de tomar o comprimido pela manhã. Passa por reduzir o consumo de sal, vencer o sedentarismo, moderar o consumo de álcool e aprender a gerenciar o estresse desse mundo acelerado em que vivemos.
Se eu pudesse deixar um único conselho, seria o de não esperar sentir algo para cuidar da saúde. Aferir a pressão arterial pelo menos uma vez por ano é um gesto simples, rápido e que salva vidas. Conheça os seus números. A hipertensão pode até ser silenciosa, mas a nossa atitude contra ela precisa ser barulhenta e ativa. Cuidar do coração é, antes de tudo, um ato de respeito à própria vida e a quem nos ama.