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CRÔNICA

Café servido com benção

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Em recente viagem a Caicó, ainda era cedo no sertão potiguar. O sol batia de lado na caatinga e pintava tudo de amarelo. Adiante, um letreiro simples: “Restaurante da Dona Lúcia – Café e Cuscuz”. Parei o carro no acostamento, olhei para dentro. Não havia luxo: cadeiras de plástico, mesas de fórmica, piso cimentado e forro em PVC.

Empurrei a porta de madeira. O cheiro me pegou primeiro: café passado no pano, forte, misturado com o cheiro de comida na chapa. “Entre, meu filho. Sente-se ali na sombra”, disse uma voz vinda de dentro. Era Dona Lúcia. Cabelo preso, avental florido e um sorriso de quem já me conhecia, mesmo sendo a primeira vez que eu pisava ali.

A casa estava cheia. Na mesa do canto, três caminhoneiros dividiam um bule e contavam casos de estrada. No meio do salão, um senhor de chapéu de palha comia cuscuz com leite, conversando com o rapaz do balcão como se fossem irmãos de infância. Ninguém tinha pressa. O tempo ali não corria como na cidade. Escorria devagar, junto com o café.

Sentei-me. Em menos de um minuto, a caneca chegou: branca, de alumínio, fumegando. Junto veio um prato: cuscuz quentinho, manteiga derretendo no meio, um pedaço de queijo de coalho, dois ovos caipiras, carne de sol e costela de carneiro. “Quer mais café? Aqui a gente reforça”, disse Dona Lúcia, já se virando para atender outra mesa. E foi ali, entre uma garfada e outra, que a sabedoria do povo apareceu sem pedir licença.

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O senhor do chapéu falou da roça. Disse que o açude estava baixo de novo e que a previsão não era boa. Fez uma pausa, tomou um gole de café e completou: “Mas Sant’Ana e Nossa Senhora da Guia vão providenciar a chuva. E, se não chover, a gente dá um jeito.”

A cordialidade não era turismo, mas um jeito de viver. Era puxar a cadeira e perguntar: “Já tomou café?”. Era dividir o último pedaço de tapioca.

Terminei meu desjejum olhando pela janela. A estrada estava quieta, a poeira subia com a passagem de um carro e a caatinga continuava seca. Mas, dentro daquele restaurante simples, o mundo parecia inteiro.

Paguei, agradeci e escutei o “Volte sempre, viu?” de Dona Lúcia. Retornei ao carro com a xícara ainda quente na memória. Entendi, ali, que a felicidade no sertão não depende da chuva. Depende de ter com quem dividir o pão. E de um café servido com a bênção de Deus, às 6h da manhã, na beira da estrada.

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