Opinião
Jurassic Park
Parece que, por mais que o tempo avance, ainda existem situações e setores sociais que insistem em nos puxar para o buraco, para o retrocesso. Algo como um retorno a épocas remotas, medievais, jurássicas até. Acho, inclusive, que há pessoas que adorariam voltar para dentro das cavernas. O caso da estudante de Turismo da Uniban, Geisy Arruda, agredida por usar um vestido curto dentro da universidade, é um daqueles exemplos que nos faz reviver os tempos do ?uga-buga?. Mas não é só isso. Lamentavelmente, a barbárie de São Bernardo do Campo revelou ? da pior forma possível ? que a violência machista segue nos perseguindo e perturbando, como uma espécie de sombra do grotesco. Quando vi, pela primeira vez, as cenas que mostram a estudante sendo assediada por uma multidão enlouquecida, juro que pensei estar vendo o Animal Planet ou o Discovery Channel. Sim, porque não eram pessoas naquele vídeo. Eram animais, gritando, uivando, subindo pelas paredes. Os diversos e medonhos xingamentos, recebidos pela moça, mostraram quanto atraso nós ainda temos nesta sociedade. E o pior: demonstraram, também, que o machismo não é um problema dos séculos passados, já que esta mesma sociedade não pode viver sem transformar mulheres em objetos consumíveis e descartáveis. Mas, se a selvageria daqueles estudantes já era um ato de violência inconcebível, muito pior foi a legitimidade que a direção da universidade deu àquelas ações bestiais, quando expulsou a vítima do caso. A decisão da Uniban se iguala ao crime de culpar uma mulher estuprada pela violência sofrida, alegando que suas roupas teriam provocado os instintos do estuprador. Uma agressão imensurável. E mesmo com a universidade revogando a expulsão da estudante, por conta das pressões recebidas, o mal já está feito. Cabe, agora, uma reflexão sobre o tipo de sociedade que temos e aquela que queremos. Geralmente, quando digo que mazelas como estas da Uniban são alimentadas pelo capitalismo, algumas pessoas dizem que sou um ultrapassado, que isso é coisa lá do século 19. Entretanto, ironicamente, os fatos insistem em me dar razão. Não é o tipo de sociedade que defendo que não tem mais espaço na História. É exatamente esta em que vivemos que não nos serve mais. Ora, o que esperar de um sistema social que vende mulheres em bancas de jornal, em filmes pornográficos, em programas de TV e campanhas publicitárias? Só desrespeito e violência, obviamente. Eu não sei vocês, mas não me agrada nenhum pouco a ideia de voltar à Era dos tacapes e do ?uga-buga?. (*) É jornalista e escritor.