DIPLOMACIA
O imbróglio da embaixadora
A decisão do governo Trump de revogar o visto da embaixadora brasileira em Washington, Maria Viotti, é considerada gravíssima, desproporcional e sem precedentes por diplomatas americanos e brasileiros. São vários os aspectos anômalos da decisão: os EUA levam ainda mais tempo para analisar pedidos de agrément (jargão usado para a concessão de aval) de embaixadores estrangeiros; a demora na concessão tradicionalmente não gera retaliações diretas; e, na prática diplomática, não se anuncia publicamente o nome de um indicado antes de o país anfitrião aceitá-lo.
A justificativa para revogar o visto de Viotti foi a demora na concessão do agrément a Daniel Perez, nome indicado por Trump para ocupar o cargo de embaixador no Brasil. “Este episódio em particular [revogação do visto] é focado no fato de nós termos um indicado a embaixador muito qualificado; o governo do Brasil nos deve uma resposta rápida e positiva ao pedido de agrément”, disse um alto funcionário americano, em conversa com jornalistas, sob a condição de se manter em sigilo. Mas, segundo diplomatas americanos, os EUA levam, no mínimo, de dois a três meses para analisar um pedido e conceder agrément a embaixadores de outros países.
No caso de Perez, o indicado de Trump para a embaixada em Brasília, passaram-se pouco mais de dois meses desde o pedido, feito em junho. Não há notícia de que autoridades de outros países tenham revogado vistos de embaixadores americanos em razão da demora na concessão de agrément a seus representantes nos EUA. Além disso, a demora ou a sinalização de que um país não concederá aval a um embaixador indicado não costuma gerar retaliações contra diplomatas. Isso acontece apenas quando há expulsão de embaixadores.
A estultícia e a péssima assessoria de Donald Trump o empurram na direção que interessa eleitoralmente ao presidente Lula: a luta pela soberania nacional. A novidade é que um esbirro do trumpismo na América do Sul, Milei, juntou-se à fanfarronice de Trump. EUA e Argentina ocupam, respectivamente, o segundo e o terceiro lugares nas relações comerciais do Brasil. A soma das transações de compra e venda com esses dois países representa quase 20% da corrente de comércio. O intercâmbio com EUA e Argentina soma cerca de US$ 110 bilhões anuais, constituindo uma cadeia importante demais para ser negligenciada.
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A justificativa americana para tal medida é o emprego da “reciprocidade”, em razão da negativa do governo brasileiro de conceder visto a dois assessores do Departamento de Estado que viriam ao Brasil. Isso ocorreu depois que o prestigioso jornal The Washington Post denunciou que os dois atuariam para desestabilizar o processo eleitoral brasileiro.
Fica a dúvida: seria melhor manter essa situação ou liberar os vistos dos dois assessores americanos e, caso repetissem as parvoíces do bolsonarismo sobre o sistema de votação, rebater de imediato suas alegações com fatos? Como disse o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Kassio Nunes Marques, a urna eletrônica é um patrimônio da democracia brasileira, e o melhor modo de defendê-la é expor, à luz do sol, todas as suas características técnicas e responder com transparência às indagações que surjam.