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O espelhinho do dominador

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Como toda oposição que se preza, petistas e apaniguados queriam o poder a qualquer custo, isso lá pelos anos finais de FHC. Acumulando pólvora, com lentes de aumento, dissecavam as ações governamentais. Nas casas legislativas a ordem era discordar de tudo que viesse do adversário. Lula, presidente do partido, lascava o pau nas incipientes ?bolsas? (já naquela época cinicamente eleitoreiras), sobretudo na bolsa-escola. É célebre sua dissertação em que as compara aos espelhinhos, que nos primórdios o homem branco dava aos índios para seduzi-los e dominá-los. O combativo Lula não dava tréguas. Num momento de rara inspiração denunciaria a presença de trezentos picaretas na Câmara Federal. Era contundente quando se tratava das políticas de atenção aos aposentados, sendo crítico ferrenho das perdas salariais impostas por um governo conservador, insensível e entreguista que não respeitava os que um dia tinham sido a massa trabalhadora do País. Grande oposição petista. Arrepio-me só de pensar na intransigente defesa pela não criação da CPMF, imposto supostamente destinado a ajudar a financiar gastos com a saúde, que ontem como hoje continua precária, apesar da vergonhosa exaltação da propaganda oficial. Para felicidade geral e orgasmos múltiplos dos companheiros, um dia faltaria luz em vários Estados. Marqueteiros logo apelidaram o fenômeno de ?apagão?, termo pejorativo que por si só se definia. Pode-se dizer sem medo de errar: o ?apagão? ganhou a eleição. Antes disso ? ou ao mesmo tempo ? (talvez adequadamente), Serra seria consagrado como o ?Ministro da Dengue?. Finalmente o povo, através de um operário, democraticamente, efetivamente chegaria ao poder no Brasil. Semi-analfabeto, mas com muito gás, um dos primeiros atos foi obrigar os aposentados a descontar INSS. O cala-boca geral incluiria o aparelhamento do Estado com companheiros derrotados nas eleições, mamando em sinecuras de toda natureza. Itaipu e Furnas não escapariam desse furor predatório. Com tais quadros, não causa espanto o apagão dessa semana. Desmoralizados pela bagaceira do Mensalão, não sem lamentos, a CPMF chegou ao fim. Inconformados, petistas e áulicos brigariam até o fim pela sua permanência. As tímidas bolsas da era FHC se multiplicariam. Calcula-se que 40 milhões de brasileiros estejam se mirando no ?espelhinho? do dominador. Agora entra em campo o bolsa-celular, enquanto aguarda no banco, dizem, o bolsa-camisinha. (*) É médico e professor da Ufal.

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