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O mau caminho da transposi��o

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Único poder constituído no Nordeste a realizar sessões especiais e formalizar posição contrária à realização da obra de transposição do Rio São Francisco, reverberada como solução para levar água ao denominado Nordeste Setentrional, a Assembleia Legislativa de Alagoas observou, para adotar acertadamente tal atitude, uma linha de argumento consistente: a necessidade urgente de revitalização do rio, que mingua pela poluição e pela destruição das matas ciliares ao longo do seu curso. Ainda há, entretanto, outros dados que vêm ao encontro da postura do Legislativo alagoano em relação à obra, que, até agora, só teve 15% de seu cronograma executado. O empreendimento gigantesco, que engolirá recursos comparáveis ao projeto de Lei Orçamentária de Alagoas para todo o exercício de 2010 ? estimado em 5,7 bilhões ? é constantemente apontado por especialistas como mau caminho a ser seguido. Quanto aos dados, causa-me espécie o fato de saber que diversos estudos demonstram hoje a má gestão dos recursos hídricos disponíveis na região a ser contemplada pela obra de transposição. Os números são gritantes: há 70 mil açudes nessa área do Nordeste, comportando nada menos do que 87 bilhões de metros cúbicos de água, mas não há redes que distribuam esse imenso volume de água. A transposição levará 2,1 bilhões de metros cúbicos, mas também carece de rede distributiva para as localidades isoladas e carentes de água. O Comitê de Gestão da Bacia do São Francisco, por 44 a 2, condenou o projeto e denunciou que investimento dessa magnitude atenderá a menos de 20% da população do semi-árido. Cito também a Agência Nacional de Águas, que propôs, pela metade do custo da transposição, obras alternativas para 530 municípios. O Fórum Nacional da Reforma Agrária ofereceu 140 tecnologias opcionais à obra. Soluções mais baratas e que não fazem a festança das poderosas empreiteiras brasileiras chegaram a ser suplicadas perante o governo federal, como a continuidade do projeto de construção de cisternas de placa, uma vez que 200 mil foram já construídas a custo bem menor. O velho Chico está morrendo aos poucos e o que se percebe é que o governo federal aproveita agora a frágil correnteza do rio para nova incursão eleitoral fora de época, e com dinheiro público. Que fique registrado na história: o Parlamento alagoano debateu o tema, reuniu conhecedores do assunto e assumiu uma postura institucional contra essa obra multimilionária, fadada a se transformar num elefante branco. (*) É presidente da Assembleia Legislativa de Alagoas.

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