GEOPOLÍTICA
Minerais Críticos e Segurança Energética: O Brasil como Parceiro Estratégico na Política de “Friendshoring” dos EUA
Minerais Críticos e Segurança Energética: O Brasil como Parceiro Estratégico na Política de “Friendshoring” dos EUA
Blesser Moreno – sociólogo e mestre em Avaliação de Políticas Públicas pela Universidade Federal do Ceará (UFC)
Por décadas, o comércio internacional seguiu a cartilha do economista David Ricardo, que defendia que os países deviam se especializar em produzir aquilo em que são mais eficientes e importar o restante, ignorando fronteiras e riscos geopolíticos. Essa lógica concentrou cadeias inteiras, de semicondutores a terras raras, em poucos países, sobretudo na China. O resultado foi eficiência máxima, mas também fragilidade máxima.
A pandemia, a guerra na Ucrânia e os choques climáticos expuseram o custo dessa aposta. Faltaram insumos básicos, dispararam os preços e ficou claro que a dependência excessiva de rivais estratégicos é uma vulnerabilidade, não uma vantagem. O mundo redescobriu, sem citá-lo diretamente, um princípio caro a Adam Smith: o livre comércio é excelente, exceto quando coloca em risco a sobrevivência e a segurança nacional do Estado.
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Nasce daí o “friendshoring”, a reorganização das cadeias de suprimento em torno de parceiros confiáveis, e não apenas dos mais baratos. Para os EUA, isso significa reduzir a dependência da China em relação a lítio, cobre, níquel e terras raras, essenciais para baterias, veículos elétricos e tecnologias de defesa.
É nesse tabuleiro que o Brasil ganha protagonismo. O país reúne reservas relevantes de terras raras, nióbio e lítio, além de uma matriz elétrica majoritariamente limpa, um diferencial competitivo raro. Políticas de incentivo à mineração sustentável e à transição energética, se bem calibradas, podem transformar recursos naturais em capital diplomático.
O desafio é converter potencial geológico em confiança institucional. Investidores americanos buscam previsibilidade regulatória, rastreabilidade ambiental (ESG) e segurança jurídica, exigências que testam a capacidade brasileira de licenciar, industrializar e agregar valor à cadeia mineral, em vez de repetir o papel histórico de mero exportador de commodities.
Se antes a globalização ricardiana tratava a geografia como irrelevante, o atual “friendshoring” devolve à geopolítica seu peso original. Para o Brasil, a oportunidade é clara: usar seus minerais críticos não apenas como mercadoria, mas como moeda de barganha estratégica na nova ordem energética global, desde que consiga oferecer, ao lado do minério, a confiança que hoje vale tanto quanto o preço. E confiança se conquista com muito trabalho.